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Tesla Roadster se torna a vingança de Nikola

Publicado: julho 27, 2010 por Yogi em Math, Science, Tech, Tudo
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Texto: Kim Reynolds Fotos: Brian Vance (16-07-08)

The New York Times Syndicate

Espera pelo início das vendas do esportivo elétrico só aumenta o apetite – O quanto o Tesla Roadster é realmente rápido? Em alguns segundos vamos descobrir porque, emoldurado por seu pára-brisa do tamanho de uma vigia de submarino, está um delicioso trecho em linha reta da Skyline Boulevard, uma estradinha sinuosa muito atraente sobre a qual nunca havíamos ouvido falar e que fica nas colinas costeiras acima de San Carlos, na Califórnia. San Carlos, caso você não esteja mexendo com o Google Earth neste momento, é um subúrbio a noroeste do Vale do Silício, onde a Tesla decidiu estabelecer seu centro de pesquisa e desenvolvimento cerca de quatro anos atrás. Por entre as árvores, podemos vez por outra avistar a Hoover Tower, da Universidade Stanford, a aproximadamente 12 km.

Ok, então, eu estou com o pedal do freio colado ao chão. Os espelhos miram o tráfego inocente. A costa está limpa. Encostou o pé no acelerador e se lembrou de que Mark Twain ironizava o inverno mais frio que ele já havia enfrentado como sendo um verão em San Francisco? O mesmo vale para San Carlos. Exceto pelo fato de esta avaliação ter sido feita em dezembro, invernos nos EUA, de a capota do Roadster ter sumido sem avisar e de uma frente fria estar vindo direto do cinzento Pacífico. Mas voltemos ao trabalho.

Eu aperto o acelerador, me prendo e… bom, espere um pouco, a gente chega lá. Primeiro eu quero contar a você a ironia presente no nome deste carro. Você nunca se perguntou de onde vem esse “Tesla”? Historiadores automotivos podem estar acostumados com a famosa história de Thomas Edison encorajando um jovem empregado chamado Henry Ford (“Meu jovem, você tem o necessário. Mantenha isso. Carros elétricos precisam ficar próximos de estações de energia”). Mesmo assim, a realidade é que o genioso Tom rapidamente embarcaria em milhares de experimentos visando exatamente quebrar a noz da bateria automotiva e, em 1904, ele finalmente apresentou, durante uma festa de arromba, sua bateria de níquel ferroso para carros elétricos.

Não funcionou, pelo menos não automotivamente. Mas a relação disso com o Tesla Roadster é que, um ano antes de conversar com Ford, Edison teve um problemão com outro empregado, um curioso imigrante sérvio chamado Nikola Tesla. Dependendo da história da qual você gosta mais, Edison pode ou não ter descumprido a promessa de pagar US$ 50 mil a Tesla. Segundo Edison, a promessa era piada. Seja qual for a verdade, os campeões históricos da corrente direta, Edison, e da alternada, um bebê de Tesla, queriam mais era que o outro morresse depois disso. Então o que me chama a atenção é que agora, um século depois, o primeiro carro elétrico popular a quebrar a noz da bateria automotiva seja chamado de “um Tesla”, não “um Tom”. Sim, Tesla era um gênio. Mas ele sequer tentou fabricar baterias de automóveis? Nããão.

Tudo certo, então. Voltemos ao carro, mais especificamente a suas baterias. A razão pela qual sou preso de uma porrada só contra o banco quando espeto o acelerador não são os 250 cv do motor elétrico do tamanho de uma melancia. O que preocupa o meu pescoço é a combinação dos 250 Nm de torque presentes a zero rpm e a facilidade com que seu pacote de 6.831 baterias de íons de lítio podem acelerar o pequeno esportivo.

Note que, com um peso estimado de 1.220 kg, o Tesla Roadster tem uma relação peso/torque de 4,88 kg/Nm. Para comparar, sua referência natural, o quentíssimo Lotus Exige S (com 186 Nm e 286 kg a menos), oferece uma relação de 5 kg/Nm, mas apenas quando o motor atinge 5.500 rpm. Notavelmente, não é a zero rpm.

Apesar de o pacote de baterias conter o equivalente em energia a apenas 8 l de gasolina (antes de considerar as perdas com recarga), a Tesla alega que a eficiência do Roadster é seis vezes mais alta que a de carros esportivos equivalentes, além de ele contribuir com emissões de gás carbônico dez vezes menores (o carro em si não emite nenhum gás, mas se contabiliza as emissões provenientes da geração da energia elétrica que ele usa). Talvez. O que fica penosamente evidente enquanto você se enfronha no mundo dos carros elétricos, dos híbridos e dos movidos por célula de combustível é que a sequência de apresentações de PowerPoint de todos eles, ironicamente, favorece eles próprios.

Ainda assim, o Tesla é inegavelmente e inacreditavelmente eficiente: considerando sua parca ração de “combustível elétrico” a bordo e sua autonomia em ciclo misto (cidade e estrada) de 350 km (recentemente reduzida devido a um erro de cálculo de um fornecedor), o Roadster entrega um consumo equivalente a 43,75 km/l.

Supondo que a eletricidade seja fornecida (otimisticamente) por uma fonte altamente eficiente, como uma usina de gás natural (que a Tesla alega que pode entregar uma eficiência energética de 52,5% do poço à tomada), o consumo do Roadster do poço à roda seria equivalente, em litros de gasolina, a 23,4 km/l. É quase 1,5 mais eficiente do que um Toyota Prius, o padrão verde para os automóveis atuais.

Falando nisso, não há porque se preocupar com algo parecido com o calor infernal que as baterias de laptops geram. As baterias são refrigeradas pelo mesmo líquido usado pelo ar-condicionado; todas as baterias são expostas a uma área de refrigeração de 27 m² para eliminar qualquer possível ponto de aquecimento. A verdadeira fonte de problemas para a Tesla não está nas baterias, mas em sua transmissão. Ou melhor, transmissões. Um carro elétrico, mesmo um com uma linha de corte de rotação em 13.500 rpm, precisa de pelo menos duas engrenagens para chegar rapidamente aos 96 km/h e ainda assim bater a máxima de 200 km/h.

O primeiro desenho de transmissão se mostrou frágil; o segundo, aplicado ao carro que estou dirigindo, funciona direitinho, mas não duraria mais do que alguns milhares de quilômetros. Na época do teste, mais dois fornecedores estavam desenvolvendo simultaneamente os projetos três e quatro para acelerar o desenvolvimento. É possível até que os carros dos primeiros clientes recebam uma transmissão temporária, mais confiável, de apenas uma velocidade.

Questionado numa recente reunião com entusiasmados, mas claramente preocupados candidatos a proprietários do carro (há cerca de 600 pessoas na fila esperando por um Tesla), o presidente da empresa, Elon Musk, previu que a produção começaria devagar, mas que chegaria a sua velocidade máxima em meados de 2008. Quando um cliente perguntou se os investidores do Tesla estavam ficando tímidos, Musk (que vendeu a PayPal por muitas centenas de milhões de dólares), respondeu: “Eu (a conta bancária dele, na verdade) tenho muita bala na agulha antes que (dinheiro) se torne um problema”.

De modo otimista, Musk frisou que o desenvolvimento doloroso da transmissão do Roadster está preventivamente suavizando o caminho do próximo Tesla, um sedã desenvolvido sob o nome-código “WhiteStar”, ou Estrela Branca.

A transmissão atual é de duas velocidades, ao estilo dos manuais automatizados de dupla embreagem (DSG), com o motor subindo ou descendo de giro para acertar as rotações. Mova a alavanca e você estará na verdade apenas acionando um interruptor. Não há pedal de embreagem e o som é semelhante a um bip eletrônico. Imagine o C3PO levando um chute.

Apesar de eu estar dirigindo um protótipo, o diferencial precisará de muito menos chicotadas quando você enfiar e tirar o pé do acelerador, o que atualmente evoca um conjunto propulsor descoordenado (o que também não ajuda em nada a frágil transmissão).

Desacelerar basicamente ajusta a inerente tendência a um suave subesterço do carro, mas é interessante a força que os freios com regeneração de energia geram quando você levanta o pé. Na verdade, os freios tradicionais, por fricção, são raramente exigidos e, quando são, seu pé direito desfruta da mesma sensação proporcionada pelos freios de carros esportivos antigos porque o sistema de regeneração não é concomitantemente reforçado.

Em movimento, o passo do Roadster é surpreendentemente flexível. A Lotus fez um trabalho admirável ao esticar o chassi do Elise em 5 cm e acomodar quase 450 kg de baterias (separadas por uma carcaça em fibra de carbono) enquanto conservou essa coisa como um potente dardo rodoviário em estradas sinuosas.

Checo os espelhos mais uma vez. Ainda não há trânsito. Estou quase fazendo caretas quando solto o freio e empurro o acelerador para o chão. Bruuuummmm, 50 km/h, 60 km/h, 70 km/h; nos 4 s que você levou para ler essa frase o carro já atingiu os 100 km/h (o tempo que a Tesla diz que o carro leva para chegar a essa velocidade, de 3,9 s, seria perfeitamente plausível em um cenário controlado, como uma pista de testes).

Não há cantada de pneu, eixo bobo, vacilação, fumaça, tremida no capô, nada. Estou sendo inexplicavelmente teletransportado pelo cano de uma catapulta eletromagnética (railgun), com a cabeça sendo puxada para trás por uma aceleração forte e constante. Bizarro. E antes que seja tarde, humilhando profundamente qualquer Ferrari ou Porsche que urre e cometa o erro de se colocar ao lado de um silencioso e econômico Tesla Roadster em um semáforo fechado.

UOL – New York Times

É difícil imaginar um aspecto mais fundamental e ubíquo da vida na Terra do que a gravidade, desde o momento em que você dá o primeiro passo e cai de traseiro sobre a fralda até o lento desenvolvimento da flacidez da carne.

Mas e se tudo fosse apenas uma ilusão, uma espécie de enfeite cósmico, ou um efeito colateral de algo mais que se passa nos níveis mais profundos da realidade?

Assim diz Erik Verlinde, 48 anos, um respeitado teórico das cordas e professor de física da Universidade de Amsterdã, cuja alegação de que a gravidade é na verdade uma ilusão tem causado agitação entre os físicos, ou pelo menos entre aqueles que professam entendê-la. Revertendo a lógica de 300 anos de ciência, ele argumentou em um recente trabalho, intitulado “Sobre a Origem da Gravidade e as Leis de Newton”, que a gravidade é uma consequência das veneráveis leis da termodinâmica, que descrevem o comportamento do calor e os gases.

“Para mim a gravidade não existe”, disse Verlinde, que esteve recentemente nos Estados Unidos para se explicar. Não que ele não possa cair, mas Verlinde está entre um grupo de físicos que dizem que a ciência esteve olhando para a gravidade de forma errada e que há algo mais básico, a partir da qual a gravidade “surge”, assim como os mercados de ações surgem do comportamento coletivo dos investidores individuais e a elasticidade surge da mecânica dos átomos.

Olhar para a gravidade desse ângulo, eles dizem, poderia jogar alguma luz às questões cósmicas problemáticas do momento, como a energia escura, uma espécie da antigravidade que parece estar acelerando a expansão do universo, ou a matéria escura, que supostamente é necessária para manter unidas as galáxias.

O argumento de Verlinde se assemelha a algo possível de ser chamado de teoria “dia de cabelo ruim” da gravidade.

É mais ou menos assim: seu cabelo encrespa no calor e umidade, porque há mais formas de seu cabelo ficar curvado do que reto, e a natureza gosta de opções. Logo, é necessária uma força para deixar o cabelo reto e eliminar as opções da natureza. Esqueça o espaço curvo ou a atração a uma distância, descrita bem o suficiente pelas equações de Isaac Newton para nos permitir navegar pelos anéis de Saturno. A força que chamamos de gravidade é simplesmente um subproduto da tendência da natureza de maximizar a desordem.

Alguns dos melhores físicos do mundo dizem não entender o trabalho de Verlinde e muitos são assumidamente céticos. Mas alguns desses mesmos físicos dizem que ele forneceu um novo ponto de vista para algumas das questões mais profundas da ciência, o por que da existência do espaço, tempo e gravidade –apesar dele ainda não tê-las respondido.

“Algumas pessoas disseram que não pode estar certo, outras que está certo e já sabíamos –que é certo e profundo, certo e trivial”, disse Andrew Strominger, um teórico de cordas de Harvard.

“O que é preciso dizer”, ele prossegue, “é que inspirou muitas discussões interessantes. É simplesmente uma coleção muito interessante de ideias que toca em coisas que em grande parte não entendemos a respeito de nosso universo. É por isso que gosto”.

Verlinde não é um candidato óbvio para ir muito longe em algo assim. Ele e seu irmão Herman, um professor de Princeton, são gêmeos célebres conhecidos mais pelo domínio da matemática da teoria das cordas do que por voos filosóficos.

Nascidos em Woudenberg, Holanda, em 1962, os irmãos foram inspirados por dois programas de televisão dos anos 70 sobre física de partículas e buracos negros. “Eu fui completamente fisgado”, lembrou Verlinde. Ele e seu irmão obtiveram Ph.D.s na Universidade de Utrecht juntos em 1988 e então foram para Princeton, Erik para o Instituto de Estudos Avançados e Herman para a universidade. Após cruzarem frequentemente o oceano, eles foram efetivados em Princeton. E se casaram e se divorciaram de irmãs. Erik deixou Princeton e foi para Amsterdã para ficar próximo de seus filhos.

Ele começou a se destacar na pós-graduação, quando inventou a Álgebra Verlinde e a fórmula Verlinde, que são importantes na teoria das cordas, a chamada teoria de tudo, que diz que o mundo é feito de minúsculas cordas vibrantes.

Você pode se perguntar por que um teórico de cordas está interessado nas equações de Newton. Afinal, Newton foi derrubado há um século por Einstein, que explicou a gravidade como dobras no espaço-tempo, e que alguns teóricos acham que poderá ser derrubado pelos teóricos das cordas.

Nos últimos 30 anos a gravidade está sendo “despida”, nas palavras de Verlinde, do status de força fundamental.

Esse despojamento teve início nos anos 70 com a descoberta de Jacob Bekenstein, da Universidade Hebraica de Jerusalém, e de Stephen Hawking, da Universidade de Cambridge, entre outros, de uma ligação misteriosa entre os buracos negros e a termodinâmica, culminando na descoberta por Hawking em 1974 de que quando os efeitos quânticos são levados em consideração, os buracos negros brilhariam e no final explodiriam.

Em um cálculo provocante em 1995, Ted Jacobson, um teórico da Universidade de Maryland, mostrou que dadas algumas dessas ideias holográficas, as equações da relatividade geral de Einstein são apenas outra forma de declarar as leis da termodinâmica.

Essas explosões de buracos negros (pelo menos na teoria –nenhuma ainda foi observada) expuseram uma nova estranheza na natureza. Os buracos negros, na verdade, são hologramas –como imagens 3D que você vê nos cartões de banco. Toda a informação sobre o que foi perdido dentro deles está codificada em suas superfícies. Os físicos se perguntam desde então sobre como esse “princípio holográfico” –de que talvez sejamos apenas sombras em um muro distante– se aplica ao universo e de onde ele vem.

Em um exemplo notável de um universo holográfico, Juan Maldacena, do Instituto para Estudos Avançados, construiu um modelo matemático de um universo “lata de sopa”, onde o que acontece dentro da lata, incluindo a gravidade, está codificado no rótulo no lado de fora da lata, onde não há gravidade, assim como uma dimensão espacial a menos. Se as dimensões não importam e a gravidade não importa, quão reais podem ser?

Lee Smolin, um teórico de gravidade quântica do Instituto Perimeter para Física Teórica, chamou o trabalho de Jacobson de “um dos trabalhos mais importantes dos últimos 20 anos”.

Mas ele recebeu pouca atenção inicialmente, disse Thanu Padmanabhan, do Centro Interuniversitário para Astronomia e Astrofísica em Pune, Índia, que tratou do tema da “gravidade emergente” em vários trabalhos nos últimos anos. Padmanabhan disse que a ligação com a termodinâmica se aprofundou mais do que apenas as equações de Einstein e outras teorias da gravidade. “A gravidade”, ele disse recentemente em uma palestra no Instituto Perimeter, “é o limite termodinâmico da mecânica estatística” dos átomos do espaço-tempo.

Verlinde disse que leu o trabalho de Jacobson muitas vezes ao longo dos anos, mas que ninguém parece ter entendido a mensagem. As pessoas ainda falam da gravidade como uma força fundamental. “Nós claramente temos que levar estas analogias a sério, mas aparentemente ninguém leva”, ele se queixou.

Seu trabalho, publicado em janeiro, lembra o de Jacobson de muitas formas, mas Verlinde se irrita quando as pessoas dizem que ele não acrescentou nada de novo à análise de Jacobson. O que é novo, ele disse, é a ideia de que diferenças na entropia podem ser o mecanismo por trás da gravidade, de que a gravidade é, como ele coloca, uma “força entrópica”.

Ele teve essa inspiração por cortesia de um ladrão.

Quando estava prestes a voltar para casa de férias no sul da França em meados do ano passado, um ladrão entrou em seu quarto e roubou seu laptop, chaves, passaporte, tudo. “Eu tive que permanecer mais uma semana”, ele disse, “e tive essa ideia”.

Na praia, seu irmão recebeu uma série de e-mails primeiro dizendo que teria que prolongar sua estadia, depois dizendo que ele teve uma nova ideia e, finalmente, no terceiro dia, dizendo que ele sabia como derivar as leis de Newton a partir dos primeiros princípios, a ponto de Herman lembrar de ter pensado: “O que está acontecendo? O que ele anda bebendo?”

Pense no universo como uma caixa de letras do jogo Scrabble (palavras cruzadas). Há apenas uma forma de arranjar as letras para soletrar Gettysburg, em comparação a um número astronômico de formas para soletrarem baboseiras. Sacuda a caixa e ele tenderá à coisas sem sentido, a desordem aumentará e a informação será perdida à medida que as letras se misturam na direção de suas configurações mais prováveis. Seria isso a gravidade?

Como uma metáfora de como isso funcionaria, Verlinde usou o exemplo de um polímero –um filamento de DNA, digamos, um macarrão noodle ou um cabelo– enrolando.

“Eu levei dois meses para entender os polímeros”, ele disse.

O trabalho resultante, como reconhece Verlinde, é um pouco vago.

“Esta não é a base de uma teoria”, explicou Verlinde. “Eu não finjo que isto é uma teoria. As pessoas devem ler as palavras que estou dizendo e não os detalhes das equações.”

Padmanabhan disse que vê pouca diferença entre os trabalhos de Verlinde e de Jacobson e que o novo elemento de força entrópica carece de rigor matemático. “Eu duvido que essas ideias resistam ao teste do tempo”, ele escreveu em uma mensagem por e-mail da Índia. Jacobson disse que não conseguiu entendê-la.

John Schwarz, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, um dos pais da teoria das cordas, disse que o trabalho é “muito provocador”.

Smolin o chamou de “muito interessante e também muito incompleto”.

Em um workshop no Texas neste ano, foi pedido a Raphael Bousso, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que liderasse uma discussão a respeito do trabalho. “O resultado final foi que ninguém entendeu, incluindo pessoas que inicialmente achavam que ele fazia sentido”, ele disse por e-mail.

“De qualquer forma, o trabalho de Erik chamou atenção para uma pergunta genuinamente profunda e importante, o que é bom”, prosseguiu Bousso, “eu apenas não acho que nos aproximamos de uma resposta após o trabalho de Erik. Há muitos trabalhos sobre o assunto, mas diferente de Erik, eles nem mesmo entendem o problema”.

Os irmãos Verlinde agora estão tentando reapresentar essas ideias em termos mais técnicos da teoria das cordas, e Erik tem viajado um bocado, indo em maio ao instituto Perimeter e à Universidade Stony Brook, em Long Island, para falar sobre o fim da gravidade. Michael Douglas, um professor de Stony Brook, descreveu o trabalho de Verlinde como “um conjunto de ideias que encontra apoio na comunidade, acrescentando que “todos estão aguardando para ver se é possível tornar isso mais preciso”.

Até lá, o júri dos pares de Verlinde não chegará a uma decisão.

Em um almoço em Nova York, Verlinde avaliou suas experiências dos últimos seis meses. Ele disse que ele simplesmente se rendeu à sua intuição. “Quando me veio essa ideia, eu fiquei realmente empolgado e eufórico”, disse Verlinde. “Não é com frequência que alguém tem a chance de dizer algo novo sobre as leis de Newton. No momento eu não vejo que estou errado. Isso basta para seguir em frente.”

Ele disse que amigos o encorajaram a ir fundo e ele não lamenta. “Se ficar provado que estou errado, de qualquer forma algo será aprendido. Ignorar isso seria errado.”

No dia seguinte, Verlinde deu uma palestra mais técnica para um punhado de físicos na cidade. Ele lembrou que alguém tinha lhe dito que a história da gravidade parecia a das novas roupas do imperador.

“Nós sabemos há algum tempo que a gravidade não existe”, disse Verlinde. “É hora de gritar isso.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

Morto nesta sexta-feira (18), o escritor José Saramago (1922-2010) era também um militante “hormonal” do comunismo e dedicado polemista. Entre seus argumentos, o prêmio Nobel de Literatura defendia que a ditadura dos irmãos Castro em Cuba é um dos mais solidários regimes do mundo e que Portugal deveria entregar-se à Espanha para fundar uma nova nação chamada Ibéria.

Saramago, que já foi filado ao Partido Comunista Português, se definia também como adepto da democracia. Para ele, a falta de debate sobre esse assunto transformava-a em “uma santa no altar, de quem não se espera milagres” e que existe nos tempos de globalização da economia “apenas como uma referência”.

“Não se repara que a democracia em que vivemos é sequestrada, condicionada, amputada”, disse ele durante um debate em Portugal.

“O poder de cada um de nós limita-se na esfera política a tirar um governo de que não gosta e colocar outro de que talvez venha a gostar. Mas as grandes decisões são tomadas em outra esfera. E todos sabemos qual é: as grandes relações financeiras internacionais.”

O escritor dizia-se obrigado a mudar um mundo injusto que encontrou. “O espaço ideológico e político onde eu podia esperar pelo menos alguma coisa que me confirmasse essa idéia era muito claro. Era a esquerda, a esquerda comunista. Aí estou”, resumiu durante sabatina do jornal Folha de S.Paulo, em 2008.

Repercussão

Ferreira Gullar, poeta

Fã de ironias, afirmou na ocasião que a pergunta sobre sua militância de esquerda apesar dos crimes cometidos na União Soviética é “inevitável em qualquer entrevista”. “Poderia perguntar à pessoa se ela era católica. Provavelmente me diria que sim. E eu teria que perguntar, para seguir na mesma linha: ‘Depois da inquisição, como é que você continua a acreditar?’”, afirmou.

“Sou aquilo que se podia chamar de um comunista hormonal. Da mesma maneira que tenho no corpo, não sei onde, um hormônio que me faz crescer a barba, há outro hormônio que me obriga, mesmo que eu não quisesse, por uma espécie de fatalidade biológica, a ser comunista. É muito simples”, disse.

Leia mais sobre o escritor

Apesar de ser um histórico defensor do regime cubano, Saramago ensaiou um rompimento em 2003, quando 75 dissidentes foram presos e três pessoas foram executadas em um julgamento sumário.

Em uma carta, escreveu: “De agora em diante Cuba segue seu caminho, eu fico aqui. Cuba perdeu minha confiança e fraudou minhas ilusões”.

Pouco depois, em entrevista a um jornal cubano, reatou: “Não rompi com Cuba. Continuo sendo um amigo de Cuba, mas me reservo o direito de dizer o que penso, e dizer quando entendo que devo dizê-lo”.

“Não se pode confiar em Deus”,
afirma escritor José Saramago

Adversários

O líder mundial que mereceu as palavras mais duras de Saramago foi o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, a quem apelidou de “vômito”. “Berlusconi corrompe tudo que toca. Não consigo compreender um personagem tão vulgar, tão ridículo, tão patético”, disse o escritor em um debate na Itália.

“É ofensivo que uma prostituta vá à televisão oficial. Palavra de Berlusconi. Mas parece que não é ofensivo que uma ou mais prostitutas durmam no palácio do governo com o primeiro-ministro da Itália”, atacou.

Em 2005, no auge do escândalo do mensalão, Saramago criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à revista Época. “Depois de tantas esperanças, não imaginávamos que escândalos de corrupção tomassem o governo Lula, que representava uma luz nova a um mundo cada vez mais mergulhado em interesses mesquinhos. Ele não poderia ter admitido a corrupção e não consegue combatê-la.”

“Lula está de pés e mãos atados e parece que não vai mais conseguir fazer as grandes medidas que prometeu no plano social. Foi uma decepção para o mundo”, resumiu, para, em 2009, voltar atrás em uma entrevista ao jornal O Globo: “Acho que o presidente Lula tem feito um excelente trabalho neste segundo mandato se aceitarmos como inevitáveis certas ‘infidelidades’ ao seu programa inicial”.

Saramago também fez vários comentários sobre Israel que geraram críticas. Afirmou várias vezes que o tratamento de Israel aos palestinos se compara ao dado aos judeus no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mas sua declaração recente mais polêmica diz respeito a seu próprio país: sugeriu que Portugal se permita uma fusão com a Espanha.

“Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galícia, Castilla la Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente [a Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria. Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar”, afirmou o escritor em entrevista ao Diário de Notícias, em 2007.

“O Ceilão não se chama agora Sri Lanka, muitos países da Ásia mudaram de nome e a União Soviética não passou a Federação Russa?”, completou, em tom de ironia.

A maioria dos colegas escritores portugueses protestou. Os jornais locais ganharam páginas e páginas contra a sugestão de Saramago. Outros, notaram no comentário apenas mais uma provocação feita pelo literato. Provocação de um homem hormonal.

Obras publicadas

Poesias

– Os poemas possíveis, 1966
– Provavelmente alegria, 1970
– O ano de 1993, 1975

Crônicas

– Deste mundo e do outro, 1971
– A bagagem do viajante, 1973
– As opiniões que o DL teve, 1974
– Os apontamentos, 1976

Viagens

– Viagem a Portugal, 1981

Teatro

– A noite, 1979
– Que farei com este livro?, 1980
– A segunda vida de Francisco de Assis, 1987
– In Nomine Dei, 1993
– Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005

Contos

– Objecto quase, 1978
– Poética dos cinco sentidos – O ouvido, 1979
– O conto da ilha desconhecida, 1997

Romance

– Terra do pecado, 1947
– Manual de pintura e caligrafia, 1977
– Levantado do chão, 1980
– Memorial do convento, 1982
– O ano da morte de Ricardo Reis, 1984
– A jangada de pedra, 1986
– História do cerco de Lisboa, 1989
– O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991
– Ensaio sobre a cegueira, 1995
– A bagagem do viajante, 1996
– Cadernos de Lanzarote, 1997
– Todos os nomes, 1997
– A caverna, 2001
– O homem duplicado, 2002
– Ensaio sobre a lucidez, 2004
– As intermitências da morte, 2005
– As pequenas memórias, 2006
– A Viagem do Elefante, 2008
– O Caderno, 2009
– Caim, 2009

* Com agências internacionais

da Folha de S. Paulo

Quase metade dos americanos acredita que as preocupações com o aquecimento global são exageradas, assim como cada vez mais pessoas duvidam de que graves crises ambientais vão ocorrer por causa dele. Os dados são de uma nova pesquisa, feita pelo Instituto Gallup.

As dúvidas aparecem enquanto o presidente Barack Obama pressiona o Congresso para aprovar uma legislação que reduza as emissões de gases de efeito estufa no país.

Com eleições parlamentares a menos de oito meses, muitos congressistas estão hesitantes em aceitar uma lei referente às mudanças climáticas, especialmente se o interesse dos eleitores nela estiver diminuindo.

Sem apoio do Senado, dificilmente Obama conseguirá atingir a meta de reduzir em 17% as emissões dos EUA até 2020, em comparação com os níveis de 2005. O país é historicamente o maior poluidor do mundo.

A nova sondagem, feita entre 4 e 7 de março, indica que 48% dos americanos agora acreditam que a seriedade do aquecimento global é exagerada, contra 41% ano passado e 31% em 1997, quando foi feita a primeira pesquisa.

“Climagate”

O resultado aparece logo após a descoberta de que certos detalhes das descobertas científicas que entraram nos relatórios do IPCC (o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU) estavam ou errados ou exagerados.

Também contribuiu para minar a confiança na ciência climática o vazamento de e-mails de cientistas britânicos ligados ao IPCC, no ano passado. Os e-mails revelavam comportamentos profissionais duvidosos e tentativas de negar informação a céticos do clima.

Especialistas dizem que, apesar dos erros, as evidências disponíveis sustentam a ideia de que um planeta mais quente vai fazer com desastres naturais se tornem mais frequentes.

A maioria dos americanos ainda acredita que o aquecimento global é real, mas a porcentagem está diminuindo e é a menor desde 1997.

Mais de um terço dos entrevistados disse que os efeitos do aquecimento global nunca vão acontecer (19%) ou que não acontecerão enquanto eles estiverem vivos (16%).

Um número crescente duvida de que o aquecimento global esteja relacionado a atividades humanas: 50% apontam essa causa, contra 46% que dizem que a responsabilidade é de mudanças naturais. Para comparar, esses valores eram de 61% e 31% em 2003.

A pesquisa entrevistou mais de mil adultos e tem uma margem de erro de quatro pontos.

O ano é 2005, quando colonos judeus foram retirados à força da Faixa de Gaza por soldados israelenses – Estadão

Em “Aproximação”, drama que estreia em São Paulo e Rio de Janeiro, o diretor israelense Amos Gitai (“Kippur”, “Free Zone”) lida com a intersecção entre um momento histórico turbulento e a inquietação no plano intimista que abala os membros de uma família depois da morte do patriarca.

O momento histórico em que acontece o clímax é em 2005, quando colonos judeus foram retirados à força da Faixa de Gaza por soldados israelenses. Antes de chegar a esse ponto, Gitai, e sua roteirista habitual, Marie-Jose Sanselme (“Free Zone”, “Alila”), começam a história a partir de um personagem.

Um membro do Exército de Israel, Uli (Liron Levo, de “Munique”), vai para a França ao encontro de sua irmã adotiva, Anna (Juliette Binoche, de “Horas de Verão”), onde irão velar o corpo do pai.

A cena é acompanhada pela cantora lírica norte-americana Barbara Hendricks, que com seu canto cria um clima dúbio, colocando em dúvida se o que se vê é real ou é um delírio ou sonho de Ana. Mais tarde, o filme promove um encontro memorável do cinema contemporâneo. Juliette contracena brevemente – mas num momento-chave – com a veterana atriz Jeanne Moreau.

Ana é uma personagem estranha. Ela está alegre demais para um velório, parece se insinuar demais para o irmão adotivo. Aos poucos, ela passa por uma profunda transformação que irá questionar, acima de tudo, a sua identidade. Por questões familiares, ela acaba sendo obrigada a ir com o irmão para Israel.

Seus problemas começam logo na chegada ao país, onde ela tem dificuldades para entrar, é obrigada a separar-se do irmão e continuar a viagem sozinha. Seu maior desafio, no entanto, será enfrentar um passado que ela abandonou e encará-lo de frente. Essa foi uma das condições do testamento de seu pai.

Chegando à região do conflito entre colonos e soldados, Ana se depara com um realidade que não conhecia, que tanto a comove quanto a assusta. Um episódio do passado, que ela julgava esquecido, emerge com toda a força e ela é obrigada a lidar com isso. Nesse ponto, tal qual sua protagonista, “Aproximação” transforma-se visualmente.

Na primeira parte do filme, Gitai trabalha com planos longos, uma câmera que se move com elegância e certa lentidão. À medida que Ana se transforma, tomando contato com esse novo mundo, os planos tornam-se mais curtos, a câmera mais agitada, transmitindo a tensão do lugar e daquele momento. A fotografia é assinada pelo austríaco Christian Berger, o mesmo que neste ano foi indicado ao Oscar por “A Fita Branca”.

Sem nunca cair numa metáfora barata ou simbolismos ralos, Gitai traça um retrato multifacetado e profundo do Oriente Médio. Ana tem dificuldades de comunicação, pois não fala hebraico, e as poucas pessoas que entendem inglês mal conseguem se expressar. A tensão no ar faz parecer que algo vai se romper a qualquer momento.

Em alguns momentos, “Aproximação” pode lembrar “Free Zone”, no qual a personagem central, interpretada por Natalie Portman, sofria um choque cultural ao chegar a Israel. Ana passa por um momento parecido, mas o fato de ela ser mais madura do que a protagonista do outro filme, ressoa de outra forma.

Como é seu costume, o diretor faz um cinema político que encontra espaço para questões existenciais, ponderando não apenas sobre o papel do indivíduo na sociedade, como também a questão da identidade cultural e pessoal de cada um.

Gitai é um dos cineastas mais importantes em atividade atualmente. E “Aproximação” encaixa-se com clareza em sua obra.

A primeira cena do filme, um longo plano-sequência dentro de um trem, mostra Uli conhecendo e beijando uma palestina, interpretada por Hiam Abbass (“O Visitante”). Quando questionados por um oficial sobre a estranheza daquele envolvimento, o israelense diz que aquilo não é nada político. E ela completa: “Não é nada simbólico. Só estamos no mesmo trem.” Nesse momento, o diretor parece nos sorrir com a ironia bastante simbólica dessa constatação.

Durante a Mostra de Cinema de São Paulo de 2007, quando o filme foi apresentado com o título “A Retirada” (que tem mais a ver com o original do que este usado no lançamento comercial no Brasil), Gitai, que visitava a capital paulista, contou que esta história começou a ser escrita em São Paulo, quando sua roteirista, Marie-Jose, participava da Mostra como jurada, em 2005. (Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

A primeira DJ do Brasil

Publicado: março 11, 2010 por Yogi em Arts, Music, Non Sense, Philosophy, Psy, Tudo

Era dia de festa. A mãe de Sonia havia parado de respirar havia poucas horas – morte cerebral. Mas Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, esperava a DJ com a casa cheia. Sonia colocou aquela senhora num caixão, na sala de casa, no Jardim Paulistano, bairro nobre de São Paulo. Cuidaria do assunto na volta do trabalho. Naquele momento, apenas entrou no carro com 5 mil de seus 20 mil CDs e fez a high society paulistana dançar até funk carioca noite adentro.

Sonia Maria Saraiva Santos Abreu, a SoniÁbrêu (ela assina assim por causa da numerologia), é especialista em fazer qualquer um saracotear ao som de música africana, sertaneja ou árabe até hoje – mais de 40 anos depois de popularizar músicas gringas até então inéditas no Brasil e se tornar a primeira DJ mulher do país. Aos 60 anos, ela curte “o pé no chão” que veio com a menopausa. Mas estreia o programa Ondas Tropicais no UOL este mês e paga as contas tocando em festas de Marta Suplicy, do publicitário Nizan Guanaes ou do filho da empresária Sonia Diniz.

A DJ recebe a reportagem da Tpm de batom vermelho e sombra rosa. Acaba de chegar do Guarujá (SP), onde foi pegar onda de morey boogie, esporte que pratica há dez anos. Seis meses depois da morte da mãe, Sonia mora sozinha na mesma casa. Seu estúdio é na edícula. Lá, ela baixa músicas no computador para abastecer o repertório, que inclui forró e Ivete Sangalo, os ídolos Rolling Stones, Frank Zappa, Zeca Baleiro, Carl Cox e Beatles e nomes de que gosta na cena atual, como Pitty e a banda Pedra. Há 11 anos, ela vendeu e doou seus 22 mil LPs. “Pra que guardar velharia?”, pergunta.

De antiga, basta sua certidão de nascimento. Por causa dela, Sonia tem que se apresentar a profissionais mais jovens, que perguntam: “Você?! DJ!?!”. “Ninguém imagina uma DJ velha”, pondera a própria. “Pela experiência, ela tem coragem, por exemplo, de colocar música indiana num repertório house”, observa o DJ Paulo Recicle, 30, que faz assistência para a veterana.

Mas por pouco Sonia não arrasa em rede nacional. “Era para eu estar no Big Brother”, garante. Segundo ela, no dia da entrevista para entrar no programa, o diretor do reality show, Boninho, mudou de ideia ao ver que o cabelo da DJ estava branco, e não mais vermelho, como era sua marca registrada. “Ela estava entre as 300 entrevistadas e não foi escolhida, mas não por sua aparência. A observação sobre a mudança do cabelo foi só brincadeira!”, esclarece Boninho.

Profissional desde os 18 anos, Sonia começou como programadora da rádio Excelsior, onde ficou até os 28. “Eu que trouxe a world music para o Brasil”, garante. Ficou outros dez anos na rádio Brasil 2000, quatro na 89 FM e passou pela USP FM. Ela também esteve no Festival de Águas Claras – espécie de Woodstock brasileiro, em Iacanga (SP), em 1979 (leia reportagem na Tpm#91) – e criou a Ondas Tropicais, uma rádio ambulante estilo sound system jamaicano.

Sonia atribui essa ideia a um encontro com extraterrestres, que conta ter acontecido numa praça paulistana, nos anos 80. A bordo de sua Brasília, ela avistou um objeto grande, cinza. Desceu do carro e, em poucos instantes, apagou. “Mas ouvi vozes me dizerem que eu tinha que tocar para a massa. Falaram até as medidas que deveria ter a mesa de som”, conta.

O projeto, que durou oito anos, começou com uma Kombi, passou para um trio elétrico, rodou São Paulo e terminou num barco navegando pelos litorais paulista e fluminense. Além disso, Sonia fundou, em 1990, uma banda com 22 artistas, entre eles bailarinas africanas, percussionistas, trompetista e cantores líricos. O grupo abriu shows de Jimmy Cliff, YellowMan e Margareth Menezes.

O amigo, jornalista e DJ Otávio Rodrigues dividiu com ela um programa na rádio 89, nos anos 80. “Sonia estuda antes de fazer uma festa”, resume ele. Foi por isso que a produtora de TV e cinema Suzana Villas Boas a contratou para tocar, em 1990, no seu casamento com Arnaldo Jabor, hoje ex-marido. “Ela fez uma seleção inteligente, que transitava por todas as faixas etárias”, lembra Suzana, que repetiu a dose numa festa do programa Saia Justa, do GNT. “A Rita [Lee] não vai a lugar nenhum, mas foi nessa festa e dançou até o sol nascer”, lembra a anfitriã.

“A Rita Lee não vai a lugar nenhum, mas foi nessa festa, em que a Sonia tocou, e dançou até o sol nascer” Suzana Villas Boas, produtora de cinema e TV

Longe das pistas, a biografia de Sonia tem capítulos pouco conhecidos. Por exemplo, o fato de ela ter tomado a frente na recuperação do amigo e cantor Arnaldo Baptista, quando ele se jogou do quarto andar da clínica psiquiátrica do hospital do Servidor Público, em 1982. Ela morava com Lucinha, fã de Arnaldo na época, que virou esposa depois. Filha e sobrinha de médico e experiente na arte de falar, Sonia chantageou os médicos para conseguir livre acesso à UTI. “O quarto de onde o Arnaldo se jogou não tinha grade, e toda a imprensa estava fotografando isso. Eu prometi que não deixaria ser publicado desde que ele tivesse um quarto particular e nós pudéssemos montar nosso plantão”, lembra ela.

Música para dançar pelada
Há 40 anos vegetariana, e há 20 macrobiótica, Sonia salta da cama às cinco da manhã, corre 6 quilômetros, faz musculação, pratica ioga, anda de bike e almoça sempre no restaurante Revitalizante, no Paraíso, frequentado por Gilberto Gil, “um dos meus ídolos”. Mas seu ídolo número 1 é Jesus Cristo, cuja imagem divide as paredes do estúdio de Sonia com deuses hindus e fotos da DJ de cabelo comprido e cara de menina. Apesar da passagem do tempo, ela tem pique para passar noites sem dormir e se orgulha do corpo. “Eu posaria nua sem retoque!”, brinca.

Para Sonia, corpo nunca foi tabu. Já dançou muito pelada na frente do espelho, e só parou quando, aos 41 anos, voltou para a casa da mãe. Dona Aduzinda sofria de mal de Alzheimer e passou 18 anos entubada sob os cuidados da única filha. “Virei mãe da minha mãe”, diz Sonia, que nunca engravidou.

Arquivo Pessoal

A Kombi onde tudo começou

A Kombi onde tudo começou
Ela, que já foi simpatizante das ideias de liberdade sexual pregadas pelo indiano Osho Rajneesh, casou na igreja católica, em 1972, com um percussionista da Banda da Ilusão, de Ronnie Von. O apresentador foi padrinho da cerimônia e Silvio Santos, na época colega de Excelsior, deu ao casal um jogo de copos azuis. Mas o plano de formar uma família durou dois anos e, de lá para cá, Sonia teve apenas dois namorados. “Não quero sexo por sexo”, declara.

Por causa do espiritismo, Sonia parou de fumar maconha há um ano. Em bebida nunca foi chegada. “Essas coisas levam 50 anos para sair do corpo”, garante. Agora Sonia pensa em se mudar para Alto Paraíso de Goiás, quem sabe adotar uma criança… “Estou me preparando para a morte”, diz. Mas segue vivíssima, animando pistas e passando óleo de gergelim no rosto para manter a pele boa.

O plano deu certo e Sonia, Lucinha e mais cinco amigas se revezaram durante os três meses em que Arnaldo ficou em coma. Do acidente, ele ficou com a sequela de uma lesão cerebral, mas voltou a compor e a se apresentar com Os Mutantes.

Arquivo Pessoal

Na rua Augusta (SP), lançamento do disco do amigo Arnaldo Baptista, em 1983

Na rua Augusta (SP), lançamento do disco do amigo Arnaldo Baptista, em 1983

Países, que estão entre os maiores poluidores do mundo, completam grupo de emergentes que aceita o acordo AP

China e Índia endossam acordo estabelecido durante a cúpula climática da ONU em dezembro

OSLO – China e Índia, que figuram entre os maiores emissores de poluentes do mundo, anunciaram nesta terça-feira, 9, associação ao acordo climático definido em dezembro em Copenhague. A notícia reacende o debate sobre as mudanças climáticas após revés simbolizado na renúncia de Yvo de Boer, diretor da ONU para o clima, pressionado pelo fracasso da cúpula de Copenhague.

A China foi o ultimo país do bloco de emergentes a se associar ao acordo. O governo chinês confirmou a aceitação ao enviar uma carta oficial à Secretaria para Mudanças Climáticas da ONU, localizada em Bonn, na Alemanha.

Horas antes, a Índia, através de comunicado de seu ministro do Meio Ambiente, Jairam Ramesh, confirmava a associação ao acordo climático. “Acreditamos que nossa decisão de sermos listados (como um país associado ao documento) reflete o papel que a Índia desempenhou em dar forma ao Acordo de Copenhague. Isso irá fortalecer nossa posição de negociação a respeito da mudança climática”, disse Ramesh.

Das nações que mais poluem, os Estados Unidos é o único país que não endossou o acordo climático. Ausente na última reunião da cúpula da ONU em Copenhague, na qual foi definido o acordo, os norte-americanos alegam que o texto não serve de base para qualquer futuro tratado.

O acordo

A acordo climático definido em Copenhague prevê que a comunidade internacional deve limitar o aquecimento global a 2 graus com relação aos níveis pré-industriais. No entanto, não há um claro objetivo de redução das emissões.

O acordo estabeleceu, além disso, um fundo total de US$ 10 bilhões entre 2010 e 2012 para os países mais vulneráveis a enfrentar os efeitos da mudança climática, e de US$ 100 bilhões anuais a partir de 2020 para redução das emissões e adaptação.

Acordo x tratado

O tratado deveria ter sido adotado formalmente na conferência da ONU em Copenhague por todos os países, mas objeções de última hora por parte de um pequeno grupo de países fez com que oficialmente o acordo fosse apenas citado na declaração final. Decidiu-se então que países que quisessem posteriormente se comprometer com o documento poderiam fazê-lo.

Os países mais pobres desejam negociações em “dois caminhos”, um deles preparando um tratado que substitua o Protocolo de Kyoto a partir de 2013, e outra buscando ações de mais longo prazo para que todas as nações combatam o aquecimento, inclusive os Estados Unidos, que nunca ratificaram o Protocolo de Kyoto.

Ranking de emissão de CO2

Com 1,923 milhões de toneladas de CO2 emitidos em 2008, a China lidera ranking mundial de poluição atmosférica do Centro de Análise de Informações sobre CO2 dos Estados Unidos. Os americanos estão na segunda colocação, com 1,547 milhões de toneladas, seguido da Índia, com 479. O Brasil está na décima quinta colocação, emitindo 111 milhões de toneladas de CO2.