Da Insônia

Publicado: abril 4, 2012 por Anita Sirc em Tudo
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Ando achando que vou morrer. Não, na verdade a sensação é mais urgente, ando em séria eminência de morte. Desperto à noite já buscando o ar que falta, “eu vou morrer”, penso – e a grande ironia é
que, por mais que eu me acalme, fato é que eu realmente vou morrer. Pode não ser hoje, mas será. E você também vai.

Já vai alta madrugada e eu ainda ensaiando o meu epitáfio. O que pode ser dito sobre uma fêmea sul americana, habitante do início do século XXI?

Enumero na mente as minhas ras(r)as contribuições à humanidade. Não foram muitas, mas de qualquer maneira, o processo me confunde. Devo contar todos os dias que acordei de manhã e compareci ao trabalho?
Devo contar todas as noites em que tolerei pessoas que não me interessavam? Devo me gabar de um feito, uma caridade? Contabilizo a minha contribuição à previdência social? Posso incluir as tardes em

que simplesmente me sentei e agradeci o por do sol?

Tento então avaliar as minhas qualidades. Baseio então o meu epitáfio no que sou, e não no que quero mostrar que sou. Apesar da alta miopia, sempre vi muito bem. Cientificamente provado está que enxergo diferente. Poeticamente comprovado está que em regra, vejo além. Poderia ser então assim o meu epitáfio: “Foi-se, mas via”.

Considero então as coisas que gosto, seguindo Borges: o homem que se propõe a tarefa de esboçar o mundo traça, num longo labirinto, a imagem de seu rosto.  A resposta de quem eu sou deve estar no que amo. Procuro então os meus amores incondicionais. Já sem a ajuda da mente enfraquecida pelo horário avançado,vasculho o meu computador e redescubro o meu conto preferido, companheiro de tantas cabeceiras: “O Espelho”, de Guimarães Rosa. “Desde aí, comecei a procurar-me — ao eu por detrás de mim — à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio.” Penso quantas vezes chorei ao ler: “Por aí, perdoe-me o detalhe, eu já amava— já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria.”

E é daí, do que amo, que surge o consolo: a conformidade.  Pessoas morrem, e como pessoa, você vai morrer. Conforme-se, não há o que entender. O aprendizado da conformidade e da alegria que só surge depois do detalhe, o amor. Pessoas morrem, é fato, mas também amam.

Talvez esse devesse ser o meu epitáfio: “foi-se uma pessoa que, como outras pessoas, via e amava”. O sol já vai alto, e quase solto o computador no chão, de tanto sono.

 

comentários
  1. Luíza disse:

    E eis mais uma que, como eu, parece ver melhor no escuro. As madrugadas é que sabem…

  2. Yogi disse:

    E vovó ja dizia: Quem não tem visão, bate a cara contra o muro!

  3. Anita Sirc disse:

    “…no cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador.”

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