Arquivo de março, 2010

da Folha de S. Paulo

Quase metade dos americanos acredita que as preocupações com o aquecimento global são exageradas, assim como cada vez mais pessoas duvidam de que graves crises ambientais vão ocorrer por causa dele. Os dados são de uma nova pesquisa, feita pelo Instituto Gallup.

As dúvidas aparecem enquanto o presidente Barack Obama pressiona o Congresso para aprovar uma legislação que reduza as emissões de gases de efeito estufa no país.

Com eleições parlamentares a menos de oito meses, muitos congressistas estão hesitantes em aceitar uma lei referente às mudanças climáticas, especialmente se o interesse dos eleitores nela estiver diminuindo.

Sem apoio do Senado, dificilmente Obama conseguirá atingir a meta de reduzir em 17% as emissões dos EUA até 2020, em comparação com os níveis de 2005. O país é historicamente o maior poluidor do mundo.

A nova sondagem, feita entre 4 e 7 de março, indica que 48% dos americanos agora acreditam que a seriedade do aquecimento global é exagerada, contra 41% ano passado e 31% em 1997, quando foi feita a primeira pesquisa.

“Climagate”

O resultado aparece logo após a descoberta de que certos detalhes das descobertas científicas que entraram nos relatórios do IPCC (o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU) estavam ou errados ou exagerados.

Também contribuiu para minar a confiança na ciência climática o vazamento de e-mails de cientistas britânicos ligados ao IPCC, no ano passado. Os e-mails revelavam comportamentos profissionais duvidosos e tentativas de negar informação a céticos do clima.

Especialistas dizem que, apesar dos erros, as evidências disponíveis sustentam a ideia de que um planeta mais quente vai fazer com desastres naturais se tornem mais frequentes.

A maioria dos americanos ainda acredita que o aquecimento global é real, mas a porcentagem está diminuindo e é a menor desde 1997.

Mais de um terço dos entrevistados disse que os efeitos do aquecimento global nunca vão acontecer (19%) ou que não acontecerão enquanto eles estiverem vivos (16%).

Um número crescente duvida de que o aquecimento global esteja relacionado a atividades humanas: 50% apontam essa causa, contra 46% que dizem que a responsabilidade é de mudanças naturais. Para comparar, esses valores eram de 61% e 31% em 2003.

A pesquisa entrevistou mais de mil adultos e tem uma margem de erro de quatro pontos.

O ano é 2005, quando colonos judeus foram retirados à força da Faixa de Gaza por soldados israelenses – Estadão

Em “Aproximação”, drama que estreia em São Paulo e Rio de Janeiro, o diretor israelense Amos Gitai (“Kippur”, “Free Zone”) lida com a intersecção entre um momento histórico turbulento e a inquietação no plano intimista que abala os membros de uma família depois da morte do patriarca.

O momento histórico em que acontece o clímax é em 2005, quando colonos judeus foram retirados à força da Faixa de Gaza por soldados israelenses. Antes de chegar a esse ponto, Gitai, e sua roteirista habitual, Marie-Jose Sanselme (“Free Zone”, “Alila”), começam a história a partir de um personagem.

Um membro do Exército de Israel, Uli (Liron Levo, de “Munique”), vai para a França ao encontro de sua irmã adotiva, Anna (Juliette Binoche, de “Horas de Verão”), onde irão velar o corpo do pai.

A cena é acompanhada pela cantora lírica norte-americana Barbara Hendricks, que com seu canto cria um clima dúbio, colocando em dúvida se o que se vê é real ou é um delírio ou sonho de Ana. Mais tarde, o filme promove um encontro memorável do cinema contemporâneo. Juliette contracena brevemente – mas num momento-chave – com a veterana atriz Jeanne Moreau.

Ana é uma personagem estranha. Ela está alegre demais para um velório, parece se insinuar demais para o irmão adotivo. Aos poucos, ela passa por uma profunda transformação que irá questionar, acima de tudo, a sua identidade. Por questões familiares, ela acaba sendo obrigada a ir com o irmão para Israel.

Seus problemas começam logo na chegada ao país, onde ela tem dificuldades para entrar, é obrigada a separar-se do irmão e continuar a viagem sozinha. Seu maior desafio, no entanto, será enfrentar um passado que ela abandonou e encará-lo de frente. Essa foi uma das condições do testamento de seu pai.

Chegando à região do conflito entre colonos e soldados, Ana se depara com um realidade que não conhecia, que tanto a comove quanto a assusta. Um episódio do passado, que ela julgava esquecido, emerge com toda a força e ela é obrigada a lidar com isso. Nesse ponto, tal qual sua protagonista, “Aproximação” transforma-se visualmente.

Na primeira parte do filme, Gitai trabalha com planos longos, uma câmera que se move com elegância e certa lentidão. À medida que Ana se transforma, tomando contato com esse novo mundo, os planos tornam-se mais curtos, a câmera mais agitada, transmitindo a tensão do lugar e daquele momento. A fotografia é assinada pelo austríaco Christian Berger, o mesmo que neste ano foi indicado ao Oscar por “A Fita Branca”.

Sem nunca cair numa metáfora barata ou simbolismos ralos, Gitai traça um retrato multifacetado e profundo do Oriente Médio. Ana tem dificuldades de comunicação, pois não fala hebraico, e as poucas pessoas que entendem inglês mal conseguem se expressar. A tensão no ar faz parecer que algo vai se romper a qualquer momento.

Em alguns momentos, “Aproximação” pode lembrar “Free Zone”, no qual a personagem central, interpretada por Natalie Portman, sofria um choque cultural ao chegar a Israel. Ana passa por um momento parecido, mas o fato de ela ser mais madura do que a protagonista do outro filme, ressoa de outra forma.

Como é seu costume, o diretor faz um cinema político que encontra espaço para questões existenciais, ponderando não apenas sobre o papel do indivíduo na sociedade, como também a questão da identidade cultural e pessoal de cada um.

Gitai é um dos cineastas mais importantes em atividade atualmente. E “Aproximação” encaixa-se com clareza em sua obra.

A primeira cena do filme, um longo plano-sequência dentro de um trem, mostra Uli conhecendo e beijando uma palestina, interpretada por Hiam Abbass (“O Visitante”). Quando questionados por um oficial sobre a estranheza daquele envolvimento, o israelense diz que aquilo não é nada político. E ela completa: “Não é nada simbólico. Só estamos no mesmo trem.” Nesse momento, o diretor parece nos sorrir com a ironia bastante simbólica dessa constatação.

Durante a Mostra de Cinema de São Paulo de 2007, quando o filme foi apresentado com o título “A Retirada” (que tem mais a ver com o original do que este usado no lançamento comercial no Brasil), Gitai, que visitava a capital paulista, contou que esta história começou a ser escrita em São Paulo, quando sua roteirista, Marie-Jose, participava da Mostra como jurada, em 2005. (Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

A primeira DJ do Brasil

Publicado: março 11, 2010 por Yogi em Arts, Music, Non Sense, Philosophy, Psy, Tudo

Era dia de festa. A mãe de Sonia havia parado de respirar havia poucas horas – morte cerebral. Mas Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, esperava a DJ com a casa cheia. Sonia colocou aquela senhora num caixão, na sala de casa, no Jardim Paulistano, bairro nobre de São Paulo. Cuidaria do assunto na volta do trabalho. Naquele momento, apenas entrou no carro com 5 mil de seus 20 mil CDs e fez a high society paulistana dançar até funk carioca noite adentro.

Sonia Maria Saraiva Santos Abreu, a SoniÁbrêu (ela assina assim por causa da numerologia), é especialista em fazer qualquer um saracotear ao som de música africana, sertaneja ou árabe até hoje – mais de 40 anos depois de popularizar músicas gringas até então inéditas no Brasil e se tornar a primeira DJ mulher do país. Aos 60 anos, ela curte “o pé no chão” que veio com a menopausa. Mas estreia o programa Ondas Tropicais no UOL este mês e paga as contas tocando em festas de Marta Suplicy, do publicitário Nizan Guanaes ou do filho da empresária Sonia Diniz.

A DJ recebe a reportagem da Tpm de batom vermelho e sombra rosa. Acaba de chegar do Guarujá (SP), onde foi pegar onda de morey boogie, esporte que pratica há dez anos. Seis meses depois da morte da mãe, Sonia mora sozinha na mesma casa. Seu estúdio é na edícula. Lá, ela baixa músicas no computador para abastecer o repertório, que inclui forró e Ivete Sangalo, os ídolos Rolling Stones, Frank Zappa, Zeca Baleiro, Carl Cox e Beatles e nomes de que gosta na cena atual, como Pitty e a banda Pedra. Há 11 anos, ela vendeu e doou seus 22 mil LPs. “Pra que guardar velharia?”, pergunta.

De antiga, basta sua certidão de nascimento. Por causa dela, Sonia tem que se apresentar a profissionais mais jovens, que perguntam: “Você?! DJ!?!”. “Ninguém imagina uma DJ velha”, pondera a própria. “Pela experiência, ela tem coragem, por exemplo, de colocar música indiana num repertório house”, observa o DJ Paulo Recicle, 30, que faz assistência para a veterana.

Mas por pouco Sonia não arrasa em rede nacional. “Era para eu estar no Big Brother”, garante. Segundo ela, no dia da entrevista para entrar no programa, o diretor do reality show, Boninho, mudou de ideia ao ver que o cabelo da DJ estava branco, e não mais vermelho, como era sua marca registrada. “Ela estava entre as 300 entrevistadas e não foi escolhida, mas não por sua aparência. A observação sobre a mudança do cabelo foi só brincadeira!”, esclarece Boninho.

Profissional desde os 18 anos, Sonia começou como programadora da rádio Excelsior, onde ficou até os 28. “Eu que trouxe a world music para o Brasil”, garante. Ficou outros dez anos na rádio Brasil 2000, quatro na 89 FM e passou pela USP FM. Ela também esteve no Festival de Águas Claras – espécie de Woodstock brasileiro, em Iacanga (SP), em 1979 (leia reportagem na Tpm#91) – e criou a Ondas Tropicais, uma rádio ambulante estilo sound system jamaicano.

Sonia atribui essa ideia a um encontro com extraterrestres, que conta ter acontecido numa praça paulistana, nos anos 80. A bordo de sua Brasília, ela avistou um objeto grande, cinza. Desceu do carro e, em poucos instantes, apagou. “Mas ouvi vozes me dizerem que eu tinha que tocar para a massa. Falaram até as medidas que deveria ter a mesa de som”, conta.

O projeto, que durou oito anos, começou com uma Kombi, passou para um trio elétrico, rodou São Paulo e terminou num barco navegando pelos litorais paulista e fluminense. Além disso, Sonia fundou, em 1990, uma banda com 22 artistas, entre eles bailarinas africanas, percussionistas, trompetista e cantores líricos. O grupo abriu shows de Jimmy Cliff, YellowMan e Margareth Menezes.

O amigo, jornalista e DJ Otávio Rodrigues dividiu com ela um programa na rádio 89, nos anos 80. “Sonia estuda antes de fazer uma festa”, resume ele. Foi por isso que a produtora de TV e cinema Suzana Villas Boas a contratou para tocar, em 1990, no seu casamento com Arnaldo Jabor, hoje ex-marido. “Ela fez uma seleção inteligente, que transitava por todas as faixas etárias”, lembra Suzana, que repetiu a dose numa festa do programa Saia Justa, do GNT. “A Rita [Lee] não vai a lugar nenhum, mas foi nessa festa e dançou até o sol nascer”, lembra a anfitriã.

“A Rita Lee não vai a lugar nenhum, mas foi nessa festa, em que a Sonia tocou, e dançou até o sol nascer” Suzana Villas Boas, produtora de cinema e TV

Longe das pistas, a biografia de Sonia tem capítulos pouco conhecidos. Por exemplo, o fato de ela ter tomado a frente na recuperação do amigo e cantor Arnaldo Baptista, quando ele se jogou do quarto andar da clínica psiquiátrica do hospital do Servidor Público, em 1982. Ela morava com Lucinha, fã de Arnaldo na época, que virou esposa depois. Filha e sobrinha de médico e experiente na arte de falar, Sonia chantageou os médicos para conseguir livre acesso à UTI. “O quarto de onde o Arnaldo se jogou não tinha grade, e toda a imprensa estava fotografando isso. Eu prometi que não deixaria ser publicado desde que ele tivesse um quarto particular e nós pudéssemos montar nosso plantão”, lembra ela.

Música para dançar pelada
Há 40 anos vegetariana, e há 20 macrobiótica, Sonia salta da cama às cinco da manhã, corre 6 quilômetros, faz musculação, pratica ioga, anda de bike e almoça sempre no restaurante Revitalizante, no Paraíso, frequentado por Gilberto Gil, “um dos meus ídolos”. Mas seu ídolo número 1 é Jesus Cristo, cuja imagem divide as paredes do estúdio de Sonia com deuses hindus e fotos da DJ de cabelo comprido e cara de menina. Apesar da passagem do tempo, ela tem pique para passar noites sem dormir e se orgulha do corpo. “Eu posaria nua sem retoque!”, brinca.

Para Sonia, corpo nunca foi tabu. Já dançou muito pelada na frente do espelho, e só parou quando, aos 41 anos, voltou para a casa da mãe. Dona Aduzinda sofria de mal de Alzheimer e passou 18 anos entubada sob os cuidados da única filha. “Virei mãe da minha mãe”, diz Sonia, que nunca engravidou.

Arquivo Pessoal

A Kombi onde tudo começou

A Kombi onde tudo começou
Ela, que já foi simpatizante das ideias de liberdade sexual pregadas pelo indiano Osho Rajneesh, casou na igreja católica, em 1972, com um percussionista da Banda da Ilusão, de Ronnie Von. O apresentador foi padrinho da cerimônia e Silvio Santos, na época colega de Excelsior, deu ao casal um jogo de copos azuis. Mas o plano de formar uma família durou dois anos e, de lá para cá, Sonia teve apenas dois namorados. “Não quero sexo por sexo”, declara.

Por causa do espiritismo, Sonia parou de fumar maconha há um ano. Em bebida nunca foi chegada. “Essas coisas levam 50 anos para sair do corpo”, garante. Agora Sonia pensa em se mudar para Alto Paraíso de Goiás, quem sabe adotar uma criança… “Estou me preparando para a morte”, diz. Mas segue vivíssima, animando pistas e passando óleo de gergelim no rosto para manter a pele boa.

O plano deu certo e Sonia, Lucinha e mais cinco amigas se revezaram durante os três meses em que Arnaldo ficou em coma. Do acidente, ele ficou com a sequela de uma lesão cerebral, mas voltou a compor e a se apresentar com Os Mutantes.

Arquivo Pessoal

Na rua Augusta (SP), lançamento do disco do amigo Arnaldo Baptista, em 1983

Na rua Augusta (SP), lançamento do disco do amigo Arnaldo Baptista, em 1983

Países, que estão entre os maiores poluidores do mundo, completam grupo de emergentes que aceita o acordo AP

China e Índia endossam acordo estabelecido durante a cúpula climática da ONU em dezembro

OSLO – China e Índia, que figuram entre os maiores emissores de poluentes do mundo, anunciaram nesta terça-feira, 9, associação ao acordo climático definido em dezembro em Copenhague. A notícia reacende o debate sobre as mudanças climáticas após revés simbolizado na renúncia de Yvo de Boer, diretor da ONU para o clima, pressionado pelo fracasso da cúpula de Copenhague.

A China foi o ultimo país do bloco de emergentes a se associar ao acordo. O governo chinês confirmou a aceitação ao enviar uma carta oficial à Secretaria para Mudanças Climáticas da ONU, localizada em Bonn, na Alemanha.

Horas antes, a Índia, através de comunicado de seu ministro do Meio Ambiente, Jairam Ramesh, confirmava a associação ao acordo climático. “Acreditamos que nossa decisão de sermos listados (como um país associado ao documento) reflete o papel que a Índia desempenhou em dar forma ao Acordo de Copenhague. Isso irá fortalecer nossa posição de negociação a respeito da mudança climática”, disse Ramesh.

Das nações que mais poluem, os Estados Unidos é o único país que não endossou o acordo climático. Ausente na última reunião da cúpula da ONU em Copenhague, na qual foi definido o acordo, os norte-americanos alegam que o texto não serve de base para qualquer futuro tratado.

O acordo

A acordo climático definido em Copenhague prevê que a comunidade internacional deve limitar o aquecimento global a 2 graus com relação aos níveis pré-industriais. No entanto, não há um claro objetivo de redução das emissões.

O acordo estabeleceu, além disso, um fundo total de US$ 10 bilhões entre 2010 e 2012 para os países mais vulneráveis a enfrentar os efeitos da mudança climática, e de US$ 100 bilhões anuais a partir de 2020 para redução das emissões e adaptação.

Acordo x tratado

O tratado deveria ter sido adotado formalmente na conferência da ONU em Copenhague por todos os países, mas objeções de última hora por parte de um pequeno grupo de países fez com que oficialmente o acordo fosse apenas citado na declaração final. Decidiu-se então que países que quisessem posteriormente se comprometer com o documento poderiam fazê-lo.

Os países mais pobres desejam negociações em “dois caminhos”, um deles preparando um tratado que substitua o Protocolo de Kyoto a partir de 2013, e outra buscando ações de mais longo prazo para que todas as nações combatam o aquecimento, inclusive os Estados Unidos, que nunca ratificaram o Protocolo de Kyoto.

Ranking de emissão de CO2

Com 1,923 milhões de toneladas de CO2 emitidos em 2008, a China lidera ranking mundial de poluição atmosférica do Centro de Análise de Informações sobre CO2 dos Estados Unidos. Os americanos estão na segunda colocação, com 1,547 milhões de toneladas, seguido da Índia, com 479. O Brasil está na décima quinta colocação, emitindo 111 milhões de toneladas de CO2.