Como os ditadores nos observam na internet

Publicado: dezembro 13, 2009 por Yogi em Capital, Politics, Tech, Tudo
Evgeny Morozov*

Minha terra natal, Belarus, é um lugar pouco provável para uma revolução da internet. O país, controlado desde 1994 pelo presidente autoritário Alexander Lukashenko, foi certa vez descrito por Condoleezza Rice como “o último entreposto da tirania na Europa”. A última eleição presidencial, em março de 2006, foi seguida por uma revolução mal sucedida e de vida curta. Os protestos iniciais foram brutalmente reprimidos. Mas quando as manifestações públicas não conseguiram ir para frente, os manifestantes se voltaram para formas de rebelião mais criativas: as flash mobs.

Numa flash mob, a mídia social e os e-mails são usados para reunir, num lugar público, um grupo de pessoas que então realiza uma ação breve, com frequência surreal. Alguns jovens bielo-russos usaram o serviço de blog LiveJournal para organizar uma série de eventos em Minsk com mensagens antigovernistas sutis. Os serviços de segurança fizeram muitas prisões, mas os blogueiros ocidentais e a mídia tradicional noticiaram, atraindo a atenção para a repressão.

Detalhes dessa rebelião foram desde então celebrados por vários pensadores, principalmente ocidentais, que acreditam que o ativismo digital pode ajudar a derrubar regimes autoritários. As flash mobs de Belarus são invocadas para ilustrar como uma geração de manifestantes descentralizados, armados apenas com a tecnologia, pode se opor ao Estado de formas que eram impensáveis em 1968 ou 1989. Mas esses entusiastas digitais raramente contam o que aconteceu depois.

O entusiasmo pela ideia da revolução digital é abundante: entre 2006 e 2008 eu mesmo trabalhei em projetos de internet financiados pelo Ocidente na antiga União Soviética – sobretudo com uma visão de “vamos promover a democracia através dos blogs”. Mas saí no ano passado. Nossa missão de usar a internet para estimular os cidadãos de regimes autoritários a desafiar o status quo tinha tantas consequências inesperadas que, às vezes, parecia prejudicar a própria causa que tentávamos promover.

A maior parte da mídia, tão irritada ao divulgar o impacto da internet sobre o seu setor, continua produzindo exemplos dramáticos do casamento do protesto político com a mídia social. E que lista é essa: monges birmaneses desafiando uma junta maléfica com câmeras digitais; adolescentes filipinos usando mensagens de texto para criar uma “revolução textual”; ativistas egípcios usando criptografia para se esconderem do olho que tudo vê de Mukhabarat; até ecologistas brasileiros usando mapas do Google para mostrar o desmatamento na Amazônia. E eu mencionei Moldova, China e Irã? Esses dissidentes cibernéticos, dizem, agora fazem sua luta online, trocando os panfletos e os esquecidos aparelhos de fax por iPhones.

Mas não foi isso que aconteceu em Belarus. Depois da primeira flash mob, as autoridades começaram a monitorar a By_mob, comunidade do LiveJournal onde as atividades eram anunciadas.

A polícia começou a aparecer nos eventos, com frequência antes dos manifestantes. Ela não só prendia os participantes, mas também tirava fotos. Estas – junto com as próprias imagens online dos manifestantes – eram usadas para identificá-los, muitos dos quais foram interrogados pela KGB, ameaçados de serem suspensos de universidades, ou pior. Essa intimidação não passou despercebida. Logo, apenas os ativistas mais duros compareciam aos eventos. A mídia social criou um panóptico digital que ameaçou a revolução: suas redes, transmitindo o medo público, foram infiltradas e superadas pelo poder do Estado.

Apesar do que dizem os entusiastas digitais, o surgimento de novos espaços digitais para a dissidência também gerou novos meios para rastreá-la. O ativismo analógico era bastante seguro: se um nó da rede de protesto fosse descoberto, o resto do grupo provavelmente estava seguro. Mas ter acesso aos e-mails de um ativista coloca todos os seus interlocutores sob suspeita. O resultado é um jogo de gato e rato em que os manifestantes tentam se esconder das autoridades se esforçando para criar nichos não convencionais. No Irã, os dissidentes costumavam atuar no Goodreads, um site internacional de rede social para amantes de livros. Aqui eles se engajavam discretamente em conversas sobre política e cultura, que não eram vistas pelos censores – ou melhor, até que o Los Angeles Times deu uma ajudinha e publicou um artigo sobre o que estava acontecendo, dando a dica para as autoridades.

Assim, as redes sociais, inadvertidamente, tornaram mais fácil reunir informações de inteligência sobre as redes de ativistas. Mesmo uma minúscula falha de segurança nas configurações do perfil do Facebook pode comprometer a segurança de muitas outras pessoas. Um estudo feito por dois alunos do MIT, divulgado em setembro, mostrou que é possível descobrir a orientação sexual de uma pessoa analisando seus amigos no Facebook; má notícia para os que vivem em regiões em que a homossexualidade é ameaçada com espancamento e prisão. E muitos regimes autoritários estão procurando companhias de prospecção de dados para ajudá-los a identificar manifestantes. A TRS Technologies na China é uma dessas companhias. Ela se vangloria do fato de que “graças à nossa tecnologia, o trabalho de dez policiais de internet pode ser feito agora por apenas um”.

Isso não significa que a dissidência cibernética é uma ilusão. Há três principais modelos para a teoria da “democracia pelos tweets”. Primeiro, apesar da minha cautela, a internet pode, se usada apropriadamente, fornecer aos dissidentes formas seguras e baratas de comunicação. Os ativistas russos podem usar o Skype, que é difícil de ser grampeado, em vez de linhas telefônicas inseguras, por exemplo. 

Os dissidentes podem criptografar e-mails, distribuir materiais antigovernistas sem deixar um rastro de papel e usar ferramentas inteligentes para burlar filtros da internet. Agora é fácil ser uma “ONG de um homem só”: com o Google Documents, você mesmo pode imprimir os documentos, reduzindo o risco de vazamentos. Em segundo lugar, as novas tecnologias tornam a repressão sangrenta arriscada, uma vez que a polícia está cercada por câmeras digitais e as fotos podem ser rapidamente enviadas para as agências de notícias ocidentais. Alguns governos, como o de Mianmar e o da Coreia do Norte, não se importam de serem considerados brutais, mas muitos outros sim.

Em terceiro lugar, a tecnologia reduz os custos marginais do protesto, ajudando a transformar observadores em manifestantes em momentos críticos. Um estudante iraniano apolítico, por exemplo, pode descobrir que todos os seus amigos do Facebook estão protestando e decidir tomar parte.

Este terceiro ponto, entretanto, precisa de uma avaliação cuidadosa. O argumento é o seguinte. Graças à internet, os governos perderam seu monopólio sobre o controle da informação, enquanto os cidadãos adquiriram acesso a outras fontes de conhecimento e a capacidade de se organizarem com mais segurança. Muitas pessoas usarão este acesso para aprender mais sobre democracia, o que as libertará da propaganda do governo. Elas usarão esse novo poder para pressionar o governo a se responsabilizar. Quando a próxima crise surgir – como a eleição fraudada no Irã em 2009, ou os preços altos de combustível em Mianmar em 2007 – os cidadãos buscarão a internet para ver o quanto o seu regime se tornou impopular. 

Descobrindo outras pessoas que pensam parecido, eles organizarão protestos e, se o regime não responder com violência, criarão uma “bola de neve” capaz de destruir a mais rígida estrutura autoritária.

Os cientistas sociais chamaram essas “bolas de neve” de “cascatas de informação”. Elas explicam porque, embora a maioria dos cidadãos possa acreditar que uma revolução não será bem sucedida, mesmo assim vão para as ruas quando todo mundo está protestando; tanta gente não pode estar errada. Talvez o exemplo mais famoso tenha sido descrito num estudo de 1994 pela cientista política Susanne Lohmann, da UCLA. Ela tentou explicar o apelo súbito dos “protestos de segunda-feira” na cidade de Leipzig na Alemanha Oriental, que começaram em setembro de 1989.

Lohmann argumentou que os alemães orientais que estavam em cima do muro observavam o andamento dos protestos e, percebendo a falta de retaliação do governo, decidiram se juntar a eles. Dadas as circunstâncias, era a coisa mais racional que poderiam fazer. 

Não é difícil ver como a internet pode amplificar as cascatas de informação e fortalecer assim a posição dos ativistas. Mas a verdade é, com frequência, diferente. Em Belarus, a maior parte das pessoas que estavam em cima do muro viu a resposta do Estado e, agindo racionalmente, foi procurar um muro mais alto. No Irã este ano, a famosa foto de Neda Agha-Soltan, assassinada nas ruas, espalhou-se rapidamente e se tornou um símbolo da “revolução verde”. Mas se ela encorajou os indecisos, não é tão óbvio. As cascatas de informação normalmente não se traduzem bem para as multidões, mesmo sem a influência do medo provocado pelo Estado.

Mas os defensores da internet têm outro argumento, mais sutil. Para que a democracia seja bem sucedida, dizem, é preciso que os movimentos civis ajudem a tornar os protestos mais intensos, frequentes e com mais pessoas. Uma sociedade civil vibrante pode desafiar os que estão no poder ao documentar a corrupção ou revelar atividades como o assassinato de inimigos políticos. Nas democracias, esta função é desempenhada principalmente pela mídia, organizações não governamentais ou partidos de oposição. 

Nos Estados autoritários, isso está nas mãos principalmente de indivíduos isolados, que normalmente são presos como resultado. Mas se os cidadãos puderem formar grupos afins, ganhar acesso a informações não tendenciosas e se conectarem uns aos outros, os desafios ao Estado serão mais comuns. E teóricos sociais como Robert Putnam argumentam que o surgimento de grupos assim aumenta o capital social e a confiança entre os cidadãos.

Mas as principais características da mídia social – o anonimato, a “viralidade”, a interconexão – também são suas maiores fraquezas. Como vimos, os serviços de segurança podem usar a tecnologia contra a logística do protesto. Mas o surgimento dos blogs e das redes sociais também tornou mais fácil para o Estado plantar e promover suas próprias mensagens, inventando histórias e neutralizando discussões online antes que elas se traduzam em ações offline. Os governos há muito perderam o controle absoluto sobre como as informações que se espalham online, e extirpá-las dos blogs não é mais uma opção viável. Em vez disso, eles revidam. Não é difícil lançar comentários para acusar um dissidente de ser infiel, maníaco sexual, criminoso ou espião.

Então será que devemos parar de financiar projetos que usam a internet para promover a democracia? É claro que não. Mesmo um cético como eu pode ver o lado bom. Mas o incentivo à democracia digital dever ser melhorado. Uma forma seria ajudar a fazer com que as plataformas para o ativismo cibernético – Twitter, Facebook e assim por diante – conscientizem-se de suas novas obrigações globais, incluindo a necessidade de proteger os dados confiados a eles pelos ativistas. Fora isso, é provável que os ataques cibernéticos às ONGs se intensifiquem. Nós no Ocidente devemos estar preparados para agir e ajudar as vozes dos dissidentes, fornecendo assistência gratuita e imediata para colocá-los online o mais rápido possível.

Também precisamos de uma certa consistência para lidar com os ataques cibernéticos. Os governos ocidentais deveriam evitar confirmar as teorias dos autocratas paranóicos sobre uma revolução do Twitter, que precisaria portanto ser reprimida. Durante os protestos no Irã este ano, o departamento de Estado dos EUA chamou os executivos do Twitter e pediu para que eles postergassem uma manutenção no site para que os iranianos pudessem continuar usando-o para protestar. Não houve melhor maneira de confirmar as suspeitas iranianas de que o governo dos EUA estava de certa forma por trás do protesto.

Uma última ideia. Que no futuro sejamos um pouco mais céticos sobre a necessidade de reinventar a roda em relação aos protestos. Em quase todos os países comandados por regimes autoritários há uma reserva de ativistas, dissidentes, e intelectuais antigovernistas que mal ouviram falar do Facebook. Contatar essas redes efetivas, porém sem conexão à internet, terá mais resultados do que tentar persuadir os blogueiros a assumirem atividades políticas. As embaixadas ocidentais que trabalham em campo em Estados autoritários com frequência são excelentes em identificar e empoderar essas redes, e a alfabetização nas novas mídias deveria se tornar parte do treinamento diplomático. Afinal, esses caras das antigas são pessoas que trouxeram a democracia para a Europa central e do leste. E provavelmente serão eles que conquistarão a liberdade para a China e para o Irã.

*Evgeny Morozov é membro da Universidade Georgetown. Seu livro sobre a internet e a democracia será publicado no final de 2010. 

Tradução: Eloise De Vylder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s