Arquivo de dezembro, 2009

da France Presse, em Washington

“Ardi”, o esqueleto de hominídeo fêmea mais antigo já encontrado até hoje, com 4,4 milhões de anos, foi a descoberta científica mais importante de 2009, segundo definição dada pela revista “Science” na quinta-feira (17).

O fóssil lidera a lista dos dez maiores avanços científicos do ano, que também inclui a descoberta de água na Lua e o uso de folhas de átomos de carbono ultrafinas em aparelhos eletrônicos experimentais.

Reuters
Descoberta de esqueleto humano do Ardipithecus ramidus na Etiópia lança luz sobre origens do homem

“Ardi”, um Ardipithecus ramidus, foi objeto de 15 anos de estudo minucioso por antropólogos. O esqueleto, encontrado na Etiópia, deu início a uma nova etapa na pesquisa da evolução do homem, segundo os cientistas.

Sendo 1,2 milhão de anos mais velho que “Lucy”, até então o fóssil de hominídeo mais antigo já encontrado, Ardi está ajudando a derrubar mitos populares sobre a relação direta entre o ser humano e os símios modernos.

A análise do crânio, dos dentes, da pélvis, das mãos, dos pés e de outros ossos de “Ardi” mostraram que os símios africanos evoluíram consideravelmente desde o momento em que compartilharam um ancestral comum com os humanos.

“[Ardi] muda a maneira de pensarmos sobre a evolução humana mais antiga”, indicou Bruce Alberts, editor da “Science”.

Reprodução/Science
Crânio e mandíbula do Ardipithecus ramidus, descrito como o mais antigo esqueleto de ancestral humano

Rol científico

Entre as outras descobertas destacadas pela revista estão os pulsares, vistos pela primeira vez pelo telescópio Fermi, da Nasa. Um deles foi localizado a 4.600 anos-luz da Terra.

As observações ajudaram a explicar como funciona um pulsar –o centro de uma estrela de nêutrons, caracterizado pela emissão, a intervalos regulares e curtos, de radiação muito intensa–, e como ele contribui para a radiação eletromagnética no Universo.

A astrofísica foi fonte de outras dois dos dez maiores avanços científicos do ano segundo a “Science” –que inclui a descoberta de água gelada na Lua pela Nasa.

Em outubro, a agência espacial americana enviou duas sondas para que se chocassem contra a superfície lunar, em uma experiência dramática em busca de água. Uma delas caiu na cratera Cabeus, perto do polo sul lunar, a 9.000 quilômetros por hora; a outra teve o mesmo destino quatro minutos depois, esta equipada com câmeras e sensores para registrar o impacto e o que resultaria dele.

A Nasa foi especialmente elogiada pela revista científica pelos reparos realizados por astronautas no telescópio espacial Hubble, que desde seu lançamento, em 1990, registra imagens sem precedentes do Universo.

Entre os “temas quentes” a serem acompanhados em 2010, a “Science” menciona o metabolismo das células cancerosas, o sequenciamento do exoma –genes que representam 1% do patrimônio genético, mas que controlam as funções vitais do organismo– e o futuro dos voos tripulados ao espaço.

Presidente da estatal diz que o Lula salvou a estatal de ter partes vendidas, caso os tucanos vencessem a eleição

Roberval Angelo Schincariol e Tatiana Freitas

Seu orixá é Obaluaiê, o “dono da terra”, como revelou à imprensa pela primeira vez nesta entrevista. Mas bem que o baiano José Sérgio Gabrielli poderia ser chamado de “príncipe do mar”. Em seus quase quatro anos à frente da Petrobrás, ele anunciou a conquista da autossuficiência brasileira em petróleo (2006); a descoberta do pré-sal (2007-2008); e a consequente listagem da Petrobrás entre as maiores companhias de energia do mundo.

O que para muitos críticos não passa de um golpe de sorte, para Gabrielli, que assumiu a liderança da maior companhia brasileira no lugar de José Eduardo Dutra, em abril de 2006, o sucesso da Petrobrás é fruto de uma política de governo e só foi possível graças à eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e à sua reeleição em 2006. “O presidente Lula fez a diferença”, disse em entrevista exclusiva à Agência Estado.

Segundo Gabrielli, se o resultado das eleições tivesse sido outro, com a vitória de José Serra em 2002 ou de Geraldo Alckmin em 2006, a Petrobrás teria tomado outro rumo. “Partes da empresa poderiam ter sido privatizadas.” 

Mas Gabrielli também acredita no destino. Segundo ele, “há muita sorte em encontrar petróleo”. Mas não apenas isso. “Você não perfura um poço a 300 quilômetros de distância da costa e a milhares de metros de profundidade apenas confiando que Deus é brasileiro.” Afinal, de acordo com a crença, Obaluaiê foi adotado e criado por Iemanjá, a “rainha do mar”. A seguir, os principais trechos da entrevista:

A “Foreing Policy” publicou uma matéria recentemente questionando o novo marco regulatório do pré-sal, principalmente no que diz respeito à participação do Estado na Petrobrás. Citando os dois possíveis candidatos mais em evidência, a revista afirma que se o governador José Serra vencer as eleições presidenciais de 2010, ele vai tentar reverter isso. Já se a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sair vencedora, as empresas internacionais terão de recorrer à Justiça. O que o sr. tem a dizer sobre isso?

Que a Foreing Policy, uma revista americana, é uma think-tank liberal que tenta influenciar a opinião pública. Uma crítica sobre a presença do Estado em uma empresa vinda da Foreing Policy é normal. O contrário é que seria novidade. Acredito que a proposta do governo para o pré-sal claramente aumenta o papel do Estado. E isso é necessário e importante porque essa é a tendência mundial. E sempre foi na área do petróleo, que é um produto essencialmente vital e estratégico para a vida moderna.

Mas há exceções, como…

Os Estados Unidos não estão ausentes da indústria do petróleo. O Estado americano pode não estar diretamente produzindo, mas está atuando fortemente via estoque regulador, via estímulo às suas empresas, via regulações. No caso brasileiro, me parece que a nova regulação reflete uma realidade distinta da antiga regulação. São diferenças importantes. A primeira é o acesso a capitais. Na década de 90, tínhamos um problema para termos acesso a capitais que hoje não existe. A outra é o acesso à tecnologia. Hoje a Petrobrás, em águas profundas, é a empresa que tem maior mobilização tecnológica e conhecimento, e opera 22% da produção de águas profundas no mundo.

Mas isso não é fruto de um longo processo?

Sim, vem num processo. Primeiro tem um processo de melhoria das condições macroeconômicas. Depois, do controle da tecnologia. E, terceiro, o risco da área exploratória é muito baixo. Hoje você tem essa situação bastante distinta. Anteriormente era uma lei voltada a ajudar e permitir que as empresas privadas capturassem todos os ganhos da atividade do petróleo.

O sr. acredita que se o presidente Lula não tivesse sido eleito em 2002 e reeleito em 2006, a Petrobrás teria chegado ao pré-sal no momento em que chegou?

Essa pergunta é difícil de responder diretamente. Eu diria o seguinte: até 2003, a Petrobrás estava sendo preparada para ter um conjunto de atividades com muita eficiência em vários ramos e com pouco ganho no sistema como um todo e estava sendo inibida no crescimento do seu portfólio de exploração. A partir de 2003, os investimentos aumentam, a Petrobrás tem uma participação mais ativa nos leilões, redefine sua organização interna de forma a ter um fortalecimento das atividades corporativas no conjunto da companhia e acelera a renovação de seus quadros. Isso foi uma mudança de orientação política na Petrobrás. Se seria possível atingir sucesso com a política anterior é difícil dizer. Agora, que o sucesso atual depende das mudanças feitas, isso é certo. Evidentemente que há muita sorte em encontrar petróleo. Mas apenas sorte não é suficiente. Você não perfura um poço a 300 km de distância da costa e a milhares de metros de profundidade só confiando que Deus é brasileiro.

Se o resultado da eleição tivesse sido outro, qual caminho o sr. acha que Petrobrás teria tomado?

Só posso reafirmar que a Petrobrás estava a caminho de se transformar numa empresa muito eficiente separadamente e que perderia a capacidade de integração entre as diversas áreas da companhia. Teria investimento e crescimento menores do que teve. Provavelmente teria menos preocupação com o controle nacional, portanto teria menos impacto no estímulo da indústria brasileira. Teria focado suas atividades em setores diferentes do que foram focados. E o resultado disso é difícil especular qual seria. Seria uma empresa diferente do que é hoje.

O sr. acha que ela poderia ter sido privatizada, por exemplo?

Como um todo, acho difícil. Mas partes dela poderiam (ter sido privatizadas). Seria difícil uma privatização total da Petrobrás, mas partes dela, sim.

Pelo atual valor de mercado, de cerca de US$ 200 bilhões, a Petrobrás é maior que muitos países da América do Sul. Quais sãos os planos da empresa para investimentos internacionais, principalmente nos países vizinhos?

Dos US$ 174 bilhões em investimentos (até 2013), US$ 16 bilhões estão reservados para a área internacional. A maior parte dessa quantia vai para os Estados Unidos. Nós temos nos Estados Unidos 270 blocos exploratórios no Golfo do México e uma refinaria. A nossa maior produção adicional internacional vem da Nigéria. Nosso investimento na América do Sul é em portfólio. Estamos crescendo na distribuição. Compramos redes de distribuição no Paraguai, Uruguai, Chile e Colômbia. Estamos concentrando nos investimentos na Argentina na área de exploração. Estamos iniciando atividades exploratórias no Uruguai. Estamos em processo de avaliação de descobertas de gás no Peru, atividades exploratórias na Colômbia. Basicamente nosso investimento na América Latina é um investimento de manutenção de nosso portfólio.

A saída do Irã foi realmente por motivos puramente técnicos como garante a Petrobrás?

Nós não saímos do Irã ainda. Tínhamos dois poços lá e o contrato terminou. Não entendo por que essa preocupação tão grande com o Irã. Ninguém da indústria do petróleo em sã consciência pode negar que o Irã é uma das maiores áreas de reservas de petróleo no mundo.

Nesse caso, é exatamente por isso a preocupação com o Irã…

Nós vamos manter nossa presença no Irã, mesmo que sem atividade prevista no país. Os poços que perfuramos estavam secos. Não encontramos nada. Paciência.

E para o Iraque, agora que as coisas parecem mais calmas por lá, a Petrobrás tem algum plano?

Não temos absolutamente nada no Iraque. Eles têm lá as preferências deles. O Iraque tem contrato de serviço. E isso não interessa à Petrobrás.

A preocupação mundial com as mudanças climáticas não poderia inviabilizar o pesado investimento atual da empresa no pré-sal a longo prazo, tendo em vista que os países buscam combustíveis considerados limpos para substituir o petróleo?

Com um crescimento da demanda de apenas 1% ao ano em média até 2030, como preveem as pesquisas, haverá a necessidade de se adicionar entre 55 milhões e 65 milhões de barris por dia de produção. E isso praticamente para manter o consumo atual.

Mesmo considerando a entrada de combustíveis limpos?

Sim. Por quê? Porque a economia vai crescer mais que 1% em média. E todo esse crescimento adicional leva em conta os novos combustíveis. De onde vem essa necessidade de 55 milhões a 65 milhões de barris? Do declínio da produção atual. Como há o declínio, haverá a possibilidade de repor esse petróleo.

Não se corre o risco de o preço do petróleo cair muito bem lá na frente com sua possível substituição?

Não. A nossa visão é a de que o petróleo vai cair, sim, mas em termos relativos. Hoje o petróleo representa cerca de 33% da matriz mundial. Lá por 2030, a commodity representará 28%. E quem vai substituir, na nossa visão? O carvão.

O carvão?

Sim, infelizmente, o carvão. E, consequentemente, em 2030, carvão, petróleo e gás natural vão continuar fornecendo 2/3 da matriz energética mundial.

Em quase 20 anos, nenhuma mudança?

Não. Para se ter ideia, os biocombustíveis terão aumento extraordinário neste período. Eles crescerão cerca de 100%.

Isso é uma boa notícia.

Você acha? Eles sairão de 0,4% da matriz energética para 0,9%. Grande diferença!

No blog da Petrobrás, o sr. reclama em um vídeo que os jornalistas perderam o interesse em perguntar sobre os biocombustíveis após o pré-sal…

(Risos) Isso porque vamos investir US$ 2,8 bilhões em biocombustíveis até 2013. Nossa capacidade de biodiesel dobrou. Tínhamos três usinas, com produção de cerca de 300 milhões de metros cúbicos, o que dobrará já no próximo ano. Estamos entrando no etanol, com a compra de participação em outras empresas.

Quais empresas?

Até o momento não temos nenhuma participação em etanol. Queremos comprar empresas o mais breve possível.

O sr. poderia fazer um balanço da Petrobrás nos últimos sete anos de administração petista?

A Petrobrás valia cerca de US$ 14 bilhões em 2003 e hoje vale cerca de US$ 210 bilhões. Hoje, temos um portfólio exploratório em crescimento no Brasil. A Petrobrás tem hoje 46% da sua força de trabalho com menos de nove anos de casa e 53% com mais de 19 anos. Houve uma renovação da força de trabalho dentro da empresa. A Petrobrás fortaleceu a sua estrutura corporativa. Entrou fortemente na área de biocombustíveis. Montou e consolidou a estrutura de gás natural no País. Em 2002 investia US$ 200 milhões por ano em refino. Hoje esse valor é mensal. Ampliou o market-share na BR (distribuidora). Comprou a Liquigás. É hoje a sexta maior empresa de energia do mundo e a segunda maior em petróleo, só perdendo para a Esso. Resumindo: um sucesso!

O sr. afirma então que a Petrobrás é o que é hoje por causa do presidente Lula?

O presidente Lula fez diferença (pausa). Acho que depende muito da orientação do governo, mas se a Petrobrás não tivesse capacidade de fazer, não seria o que é hoje. Mas o orientação clara do governo foi essa. A política de conteúdo nacional renovou a indústria do País. Temos hoje, com relação aos nossos investimentos, 74% de participação brasileira.

O governo vem sendo acusado pela oposição de usar o pré-sal como arma política para 2010…

A oposição tem de criticar sempre. Faz parte da democracia.

O sr. tem algum interesse político?

Não serei candidato, não pretendo ser candidato. Já fui candidato. A última vez em 1990.

Como os ditadores nos observam na internet

Publicado: dezembro 13, 2009 por Yogi em Capital, Politics, Tech, Tudo
Evgeny Morozov*

Minha terra natal, Belarus, é um lugar pouco provável para uma revolução da internet. O país, controlado desde 1994 pelo presidente autoritário Alexander Lukashenko, foi certa vez descrito por Condoleezza Rice como “o último entreposto da tirania na Europa”. A última eleição presidencial, em março de 2006, foi seguida por uma revolução mal sucedida e de vida curta. Os protestos iniciais foram brutalmente reprimidos. Mas quando as manifestações públicas não conseguiram ir para frente, os manifestantes se voltaram para formas de rebelião mais criativas: as flash mobs.

Numa flash mob, a mídia social e os e-mails são usados para reunir, num lugar público, um grupo de pessoas que então realiza uma ação breve, com frequência surreal. Alguns jovens bielo-russos usaram o serviço de blog LiveJournal para organizar uma série de eventos em Minsk com mensagens antigovernistas sutis. Os serviços de segurança fizeram muitas prisões, mas os blogueiros ocidentais e a mídia tradicional noticiaram, atraindo a atenção para a repressão.

Detalhes dessa rebelião foram desde então celebrados por vários pensadores, principalmente ocidentais, que acreditam que o ativismo digital pode ajudar a derrubar regimes autoritários. As flash mobs de Belarus são invocadas para ilustrar como uma geração de manifestantes descentralizados, armados apenas com a tecnologia, pode se opor ao Estado de formas que eram impensáveis em 1968 ou 1989. Mas esses entusiastas digitais raramente contam o que aconteceu depois.

O entusiasmo pela ideia da revolução digital é abundante: entre 2006 e 2008 eu mesmo trabalhei em projetos de internet financiados pelo Ocidente na antiga União Soviética – sobretudo com uma visão de “vamos promover a democracia através dos blogs”. Mas saí no ano passado. Nossa missão de usar a internet para estimular os cidadãos de regimes autoritários a desafiar o status quo tinha tantas consequências inesperadas que, às vezes, parecia prejudicar a própria causa que tentávamos promover.

A maior parte da mídia, tão irritada ao divulgar o impacto da internet sobre o seu setor, continua produzindo exemplos dramáticos do casamento do protesto político com a mídia social. E que lista é essa: monges birmaneses desafiando uma junta maléfica com câmeras digitais; adolescentes filipinos usando mensagens de texto para criar uma “revolução textual”; ativistas egípcios usando criptografia para se esconderem do olho que tudo vê de Mukhabarat; até ecologistas brasileiros usando mapas do Google para mostrar o desmatamento na Amazônia. E eu mencionei Moldova, China e Irã? Esses dissidentes cibernéticos, dizem, agora fazem sua luta online, trocando os panfletos e os esquecidos aparelhos de fax por iPhones.

Mas não foi isso que aconteceu em Belarus. Depois da primeira flash mob, as autoridades começaram a monitorar a By_mob, comunidade do LiveJournal onde as atividades eram anunciadas.

A polícia começou a aparecer nos eventos, com frequência antes dos manifestantes. Ela não só prendia os participantes, mas também tirava fotos. Estas – junto com as próprias imagens online dos manifestantes – eram usadas para identificá-los, muitos dos quais foram interrogados pela KGB, ameaçados de serem suspensos de universidades, ou pior. Essa intimidação não passou despercebida. Logo, apenas os ativistas mais duros compareciam aos eventos. A mídia social criou um panóptico digital que ameaçou a revolução: suas redes, transmitindo o medo público, foram infiltradas e superadas pelo poder do Estado.

Apesar do que dizem os entusiastas digitais, o surgimento de novos espaços digitais para a dissidência também gerou novos meios para rastreá-la. O ativismo analógico era bastante seguro: se um nó da rede de protesto fosse descoberto, o resto do grupo provavelmente estava seguro. Mas ter acesso aos e-mails de um ativista coloca todos os seus interlocutores sob suspeita. O resultado é um jogo de gato e rato em que os manifestantes tentam se esconder das autoridades se esforçando para criar nichos não convencionais. No Irã, os dissidentes costumavam atuar no Goodreads, um site internacional de rede social para amantes de livros. Aqui eles se engajavam discretamente em conversas sobre política e cultura, que não eram vistas pelos censores – ou melhor, até que o Los Angeles Times deu uma ajudinha e publicou um artigo sobre o que estava acontecendo, dando a dica para as autoridades.

Assim, as redes sociais, inadvertidamente, tornaram mais fácil reunir informações de inteligência sobre as redes de ativistas. Mesmo uma minúscula falha de segurança nas configurações do perfil do Facebook pode comprometer a segurança de muitas outras pessoas. Um estudo feito por dois alunos do MIT, divulgado em setembro, mostrou que é possível descobrir a orientação sexual de uma pessoa analisando seus amigos no Facebook; má notícia para os que vivem em regiões em que a homossexualidade é ameaçada com espancamento e prisão. E muitos regimes autoritários estão procurando companhias de prospecção de dados para ajudá-los a identificar manifestantes. A TRS Technologies na China é uma dessas companhias. Ela se vangloria do fato de que “graças à nossa tecnologia, o trabalho de dez policiais de internet pode ser feito agora por apenas um”.

Isso não significa que a dissidência cibernética é uma ilusão. Há três principais modelos para a teoria da “democracia pelos tweets”. Primeiro, apesar da minha cautela, a internet pode, se usada apropriadamente, fornecer aos dissidentes formas seguras e baratas de comunicação. Os ativistas russos podem usar o Skype, que é difícil de ser grampeado, em vez de linhas telefônicas inseguras, por exemplo. 

Os dissidentes podem criptografar e-mails, distribuir materiais antigovernistas sem deixar um rastro de papel e usar ferramentas inteligentes para burlar filtros da internet. Agora é fácil ser uma “ONG de um homem só”: com o Google Documents, você mesmo pode imprimir os documentos, reduzindo o risco de vazamentos. Em segundo lugar, as novas tecnologias tornam a repressão sangrenta arriscada, uma vez que a polícia está cercada por câmeras digitais e as fotos podem ser rapidamente enviadas para as agências de notícias ocidentais. Alguns governos, como o de Mianmar e o da Coreia do Norte, não se importam de serem considerados brutais, mas muitos outros sim.

Em terceiro lugar, a tecnologia reduz os custos marginais do protesto, ajudando a transformar observadores em manifestantes em momentos críticos. Um estudante iraniano apolítico, por exemplo, pode descobrir que todos os seus amigos do Facebook estão protestando e decidir tomar parte.

Este terceiro ponto, entretanto, precisa de uma avaliação cuidadosa. O argumento é o seguinte. Graças à internet, os governos perderam seu monopólio sobre o controle da informação, enquanto os cidadãos adquiriram acesso a outras fontes de conhecimento e a capacidade de se organizarem com mais segurança. Muitas pessoas usarão este acesso para aprender mais sobre democracia, o que as libertará da propaganda do governo. Elas usarão esse novo poder para pressionar o governo a se responsabilizar. Quando a próxima crise surgir – como a eleição fraudada no Irã em 2009, ou os preços altos de combustível em Mianmar em 2007 – os cidadãos buscarão a internet para ver o quanto o seu regime se tornou impopular. 

Descobrindo outras pessoas que pensam parecido, eles organizarão protestos e, se o regime não responder com violência, criarão uma “bola de neve” capaz de destruir a mais rígida estrutura autoritária.

Os cientistas sociais chamaram essas “bolas de neve” de “cascatas de informação”. Elas explicam porque, embora a maioria dos cidadãos possa acreditar que uma revolução não será bem sucedida, mesmo assim vão para as ruas quando todo mundo está protestando; tanta gente não pode estar errada. Talvez o exemplo mais famoso tenha sido descrito num estudo de 1994 pela cientista política Susanne Lohmann, da UCLA. Ela tentou explicar o apelo súbito dos “protestos de segunda-feira” na cidade de Leipzig na Alemanha Oriental, que começaram em setembro de 1989.

Lohmann argumentou que os alemães orientais que estavam em cima do muro observavam o andamento dos protestos e, percebendo a falta de retaliação do governo, decidiram se juntar a eles. Dadas as circunstâncias, era a coisa mais racional que poderiam fazer. 

Não é difícil ver como a internet pode amplificar as cascatas de informação e fortalecer assim a posição dos ativistas. Mas a verdade é, com frequência, diferente. Em Belarus, a maior parte das pessoas que estavam em cima do muro viu a resposta do Estado e, agindo racionalmente, foi procurar um muro mais alto. No Irã este ano, a famosa foto de Neda Agha-Soltan, assassinada nas ruas, espalhou-se rapidamente e se tornou um símbolo da “revolução verde”. Mas se ela encorajou os indecisos, não é tão óbvio. As cascatas de informação normalmente não se traduzem bem para as multidões, mesmo sem a influência do medo provocado pelo Estado.

Mas os defensores da internet têm outro argumento, mais sutil. Para que a democracia seja bem sucedida, dizem, é preciso que os movimentos civis ajudem a tornar os protestos mais intensos, frequentes e com mais pessoas. Uma sociedade civil vibrante pode desafiar os que estão no poder ao documentar a corrupção ou revelar atividades como o assassinato de inimigos políticos. Nas democracias, esta função é desempenhada principalmente pela mídia, organizações não governamentais ou partidos de oposição. 

Nos Estados autoritários, isso está nas mãos principalmente de indivíduos isolados, que normalmente são presos como resultado. Mas se os cidadãos puderem formar grupos afins, ganhar acesso a informações não tendenciosas e se conectarem uns aos outros, os desafios ao Estado serão mais comuns. E teóricos sociais como Robert Putnam argumentam que o surgimento de grupos assim aumenta o capital social e a confiança entre os cidadãos.

Mas as principais características da mídia social – o anonimato, a “viralidade”, a interconexão – também são suas maiores fraquezas. Como vimos, os serviços de segurança podem usar a tecnologia contra a logística do protesto. Mas o surgimento dos blogs e das redes sociais também tornou mais fácil para o Estado plantar e promover suas próprias mensagens, inventando histórias e neutralizando discussões online antes que elas se traduzam em ações offline. Os governos há muito perderam o controle absoluto sobre como as informações que se espalham online, e extirpá-las dos blogs não é mais uma opção viável. Em vez disso, eles revidam. Não é difícil lançar comentários para acusar um dissidente de ser infiel, maníaco sexual, criminoso ou espião.

Então será que devemos parar de financiar projetos que usam a internet para promover a democracia? É claro que não. Mesmo um cético como eu pode ver o lado bom. Mas o incentivo à democracia digital dever ser melhorado. Uma forma seria ajudar a fazer com que as plataformas para o ativismo cibernético – Twitter, Facebook e assim por diante – conscientizem-se de suas novas obrigações globais, incluindo a necessidade de proteger os dados confiados a eles pelos ativistas. Fora isso, é provável que os ataques cibernéticos às ONGs se intensifiquem. Nós no Ocidente devemos estar preparados para agir e ajudar as vozes dos dissidentes, fornecendo assistência gratuita e imediata para colocá-los online o mais rápido possível.

Também precisamos de uma certa consistência para lidar com os ataques cibernéticos. Os governos ocidentais deveriam evitar confirmar as teorias dos autocratas paranóicos sobre uma revolução do Twitter, que precisaria portanto ser reprimida. Durante os protestos no Irã este ano, o departamento de Estado dos EUA chamou os executivos do Twitter e pediu para que eles postergassem uma manutenção no site para que os iranianos pudessem continuar usando-o para protestar. Não houve melhor maneira de confirmar as suspeitas iranianas de que o governo dos EUA estava de certa forma por trás do protesto.

Uma última ideia. Que no futuro sejamos um pouco mais céticos sobre a necessidade de reinventar a roda em relação aos protestos. Em quase todos os países comandados por regimes autoritários há uma reserva de ativistas, dissidentes, e intelectuais antigovernistas que mal ouviram falar do Facebook. Contatar essas redes efetivas, porém sem conexão à internet, terá mais resultados do que tentar persuadir os blogueiros a assumirem atividades políticas. As embaixadas ocidentais que trabalham em campo em Estados autoritários com frequência são excelentes em identificar e empoderar essas redes, e a alfabetização nas novas mídias deveria se tornar parte do treinamento diplomático. Afinal, esses caras das antigas são pessoas que trouxeram a democracia para a Europa central e do leste. E provavelmente serão eles que conquistarão a liberdade para a China e para o Irã.

*Evgeny Morozov é membro da Universidade Georgetown. Seu livro sobre a internet e a democracia será publicado no final de 2010. 

Tradução: Eloise De Vylder