O Anticristo na Crítica do UOL

Publicado: setembro 1, 2009 por Yogi em Arts, Cinema, Culture, History, Literature, Nature, Non Sense, Philosophy, Psy, Tudo
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Não, “Anticristo” não é um filme romântico!

Toda forma de arte tem seus gênios, gênios incompreendidos e farsantes. Futebol, por exemplo. Entre os gênios: Pelé, Ronaldo Fofômeno etc. Entre os incompreendidos: Platini, Zico, Barbosa e outros que jogavam muito, mas nunca foram campeões de Copas do Mundo. Entre os farsantes: escolha um cabeça-de-bagre qualquer…

E há os polêmicos, por vários motivos – tanto o que faziam dentro do estádio, como o que faziam fora deles. Maradona, César Maluco, Romário.

O cinema também é assim. E o diretor dinamarquês Lars von Trier não é exatamente fácil de ser “enquadrado” nas categorias acima. Talvez “polêmico” seja um bom adjetivo para ele.

“Dançando no Escuro”, por exemplo, levou a Palma de Ouro em Cannes em 2000, e é adorado por quase todos que o assistem – por mais triste que ele seja. Já “Os Idiotas”, de dois anos antes, é um pouco mais difícil: mostra jovens intelectualizados que decidem se comportar em público como se tivessem problemas mentais. Por quê? Veja o filme…

Mas tudo isso para dizer que “Anticristo”, o novo e polêmico filme de Von Trier é difícil. Difícil de quê?, pergunta você, internauta.

Difícil de ver até o fim.

Difícil de entender.

Difícil de saber se você gostou ou não.

Hein?

  • Uma mulher seminua ao lado de bichos que a ignoram: quantas metáforas você vê nesta foto?

Enredo
Vamos começar pelo princípio: o enredo. Começa com um casal transando (sim, há sexo explícito), enquanto o filho deles cai pela janela e morre. O resto do filme são eles tentando lidar com isso. A mulher, deprimida. O marido, que é psiquiatra, tentando tratá-la.

OK até aí? Trata-se de um drama, claro. Mas há muitas e muitas maneiras de lidar com a depressão. “O filme todo começou quando eu tive depressão”, diz o diretor Von Trier logo no início do depoimento abaixo.
UOL Cinema
Assistindo ao filme ao filme, dá a impressão que ele quis se curar da depressão deprimindo os outros.

A cena da morte do bebê é, plasticamente, muito bonita. Se você não se importar em ver um bebê morrendo enquanto seus pais consomem o ato (tucanei o “transam”). Depois, cenas de choros, animais não-fofinhos, sustos, auto-emasculação. E outras imagens devidamente doloridas.

Metáfora religiosa. Ou não
Se você esteve no planeta Terra nos últimos dois milênios, deve imaginar que um filme chamado “Anticristo” tenha algum tipo de simbolismo religioso.

O QUE OS AMIGOS DO EDITOR DO UOL TABLOIDE ACHARAM DO FILME

Não se reprima: se cure e deprima

Zé Ruela

De depressão, já me basta a realidade

Resmungo, o Chato

De deprimido, já me basta o Resmungo

Reclama, a namorada do Resmungo

Acho que o diretor bebe as mesmas coisas que eu

Zé Cachacinha

Soma-se a isso o fato de o filme se passar em uma floresta chamada Éden – não foi o Jardim do Éden o palco do “Gênesis”, o primeiro livro da Bíblia?

E são apenas dois personagens: o cara (Ele) e a mulher (Ela). Estaria Von Trier recontando a origem do mundo, do universo, da religião? Afinal, há passagens bem simbólicas. E sem explicações. Afinal, explicações para quê? Este é um filme de arte, bicho. Maior barra.

O filme ainda faz menções às perseguições que as mulheres sofreram na Idade Média, acusadas de bruxas.

Diante disso tudo, dá para evitar pensar que este é um filme de fundo religioso? Sim, dá. Você passa tanto tempo sofrendo, sentindo dor, sofrendo e sentindo dor, que talvez termine o filme sem ver sombra alguma de religião ali – e sem entender se é um filme a favor das religiões, contra as religiões e totalmente à margem disso.

Depressão tem cura?
Sabendo que o diretor começou este filme para curar sua depressão, e sendo nós humanos que queremos sempre o bem do próximo, resta-nos torcer para que Von Trier tenha curado sua depressão. E que ele prepare outro filme, mas para nos curar da depressão que entramos ao assistir a “Anticristo”.

comentários
  1. Marcelo disse:

    Hum, tem na verdade um sentido religioso. um sentido humanista religioso. Na verdade, segundo o Cristianismo o Anti-Cristo é o filho de Satanás que vem à terra lançar o caos. No filme o Anti-Cristo é o filho, Nic, que após morrer lança o caos interior nos pais. Ao longo do filme percebe-se que Satanás será a mulher, pois ela afirma que Satanás é a Natureza, e não a física, mas a interior, ou seja, o próprio ser-humano, mais propriamente a mulher, daí se ter falado da caça às bruxas.
    Tendo em conta que ela deixou o filho morrer, enquanto mantinha relações sexuais, obviamente que pecou, e foi condenada pelos seus actos negligentes, pelo marido, quase numa alusão moderna de Adão e Eva. Mas ao invés de serem expulsos do Paraíso, Adão sacrificou Eva pelos seus pecados, dando o passaporte de entrada a todas as outras mulheres que morreram inocentemente.
    O filme tem toda uma metáfora, que embora não seja uma crítica à Igreja, acaba por defender as mulheres inocentes no geral, e culpar uma única mulher. Daí ter um caracter tão humanista.
    As cenas de violência física fazem sentido para passar a mensagem.
    É interessante e bom. Não chega aos níves de excelência.
    Penso que seja isso a mensagem.

  2. Léo Bueno disse:

    Acho que um adjetivo que se encaixa melhor ao Lars Von Trier é “sensacionalista”. Ainda que tenha boas idéias, e as tem, ele prefere dar azo à mania de fazer sofrer o espectador, quando há boas maneiras de fazê-lo pensar de outra forma – honestamente, o modo como Von Trier faz sofrerem os seus personagens em TODOS os filmes é forçação de barra. E normalmente quem sofre é a mulher, de modo que acredito que “misógino” também seja um bom adjetivo para defini-lo. Na linha do cineasta polêmico, inteligente e com conteúdo, prefiro o Michael Haneke.

  3. ricardo tavares disse:

    O fato de ter sido rodado durante uma depressão do diretor, explica apenas em parte a opção de Lars Von Trier por cenas chocantes que beiram o Trash-porn . A linha divisória não é rompida devido à competência artística do cineasta dinamarquês. Na verdade, a Depressão (mal psíquico do homem contemporâneo) serve como trilha a uma abordagem crítica mais contextualizada do filme. Ao expor de forma crua a perversão humana, traça uma análise dolorosa sobre o sexo e a castração, tangencia uma crítica à “aparente natureza benigna da raça humana”, tão esmiuçada na obra de Nietzsche e daí por diante clássica na abordagem de autores capitais como Beckett. Contemporaneamente, essa noção niilista – inteiramente consolidada – apenas expõe fatualmente nossa própria barbárie coletiva. Hoje temos a completa certeza de que o Humanismo Iluminista é (foi?) apenas um grande verniz à nossa animalidade brutal. Daí a pertinência de artistas como Lars Von Trier, a escancarar nossas vísceras e colocá-las em um espelho.

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