Chávez consagra receita de ‘governo ao vivo’

Publicado: agosto 30, 2009 por Yogi em Capital, International, Juris, Media, Politics, Tudo
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Na era dos “telepresidentes”, política vira novela, e eleitor, audiência
Daniel Jelin – estadao.com.br
SÃO PAULO – No lugar do presidente, um entertainer. No lugar de eleitores, plateia. No lugar de políticas públicas, emoção. Para o pesquisador colombiano Omar Rincón, do Centro de Competência em Comunicação, líderes latino-americanos adotam a lógica da televisão e ameaçam a democracia com intermináveis batalhas por “audiência” e “novas temporadas”. São os “telepresidentes”, dos quais o venezuelano Hugo Chávez é o que mais chama atenção. Primeiro, está no ar há mais tempo: 10 anos. Depois, fez escola: hoje empresta seus modos – e eventualmente dólares – ao Equador de Correa, à Bolívia de Evo Morales, à Nicarágua de Daniel Ortega. Finalmente, Chávez chama atenção porque faz questão de chamar atenção: é de longe o mais agressivo entre os “telepresidentes”, e o mais radical, de que é exemplo a recente Lei de Educação, promulgada no dia 15 e agora objeto de disputa política e jurídica.

Não bastasse, Chávez é um excelente comunicador, e seu programa “Alô, Presidente”, um divertido hit de audiência. A avaliação é do pesquisador Ricardo Gualda, da Universidade Columbia, de Nova York, especialista em análise do discurso e na história recente da Venezuela. Gualda estudou dezenas de edições do “Alô, Presidente” e explica como um programa oficial que pode


VISCERAL

“Alô, Presidente” é um talk-show, basicamente. Mas Chávez vai muito além de doutrinar o espectador. Além da cantilena bolivariana – ou socialismo do século 21 -, Chávez canta, conta piada, recita poesia, dá aulas – temerárias – de geografia, história e até biologia. Faz longas digressões, até lembrar seu primeiro carro, sua primeira namorada, seu ingresso nos quartéis. Fala dos filhos, dança hip hop, narra jogos de vôlei, faz galanteios. Chávez é capaz até de narrar as aflições de um ataque de diarreia, em episódio quevirou hit no YouTube. “Ele cria esse ambiente de intimidade familiar, da amizade, do carinho, e isso é uma arma fundamental para sua credibilidade”, diz Gualda.

O que mais impressiona no sucesso do programa, com share até acima de 15%, é que Chávez é praticamente a única atração: não há quadros, quase não há intervalos e em geral há apenas dois números musicais, um abrindo, outro encerrando a maratona. Os temas se repetem à exaustão, e a única coisa que varia mesmo é o cenário, porque a cada semana o “Alô, Presidente” é transmitido de um lugar diferente, até do exterior.

Horas e horas no ar dão a Chávez a possibilidade de investir nas imagens que lhe convêm, explica Gualda: a do professor, a do militar e, principalmente, a do presidente que é do povo, ama o povo e governa para o povo. “Ele faz um simulacro do que é ser governo”, diz. “E governa ao vivo.” É assim que, no ar, Chávez nomeia comissões, inventa projetos, despacha com os ministros, cobra autoridades locais e, com especial deleite, ataca e desqualifica a oposição.

Por ser todo ao vivo, “Alô, Presidente” já expôs Chávez ao embaraço de ser cobrado e até desafiado publicamente. Expõe também, continuamente, seu jogo político. “Nada que vem do Chávez vem de surpresa”, diz Gualda. Como exemplo, o pesquisador cita o recente fechamento de 34 rádios. “Ele vinha anunciando isso faz tempo”, afirma. “Não há contradição. É uma política que tem tido continuidade ao longo de seu governo: ocupar espaço na mídia. E ocupar literalmente.” Seu próximo passo, apostam Gualda e outros observadores, é fechar a Globovisión, única rede de TV aberta que ainda faz oposição ao governo. “É o que ele tem ameaçado há meses.”


CANSAÇO

Chávez – e por extensão todos os presidentes que o emulam e que ele apoia – tem pela frente dois grandes desafios eleitorais. Entre 2010 e 2011 (a data ainda não foi definida), ocorrem as eleições para a Assembleia Nacional (o Legislativo na Venezuela é unicameral, ao contrário do Brasil, que tem Senado e Câmara). Atualmente, ela é praticamente toda chavista, uma vez que a oposição boicotou o último pleito. A estratégia, agora é claro, não funcionou e não será repetida. E em 2012, Chávez disputa um novo mandato presidencial.

“Existe uma boa possibilidade de ele não ser reeleito. Ele tem sofrido um desgaste muito grande”, avalia Gualda, ressalvando que, em se tratando da política venezuelana, nenhum cenário pode ser descartado. “A Venezuela é um país muito polarizado: tem passeata contra, tem passeata a favor, e isso já faz 10 anos”, conta. “As pessoas estão cansadas, e está cada vez mais difícil para o Chávez botar a culpa nas oligarquias, nos norte-americanos”.


PESQUISAS

Diferentes pesquisas de opinião têm captado esse desgaste. Conforme o instituto Hinterlaces, o índice de popularidade de Chávez caiu 11 pontos desde o referendo de fevereiro. Em termos de intenção de voto, Chávez despencou de 60% em 2006 para 38% em agosto de 2009, segundo enquete do grupo Keller y Asociados. Entre diversos fatores, o diretor do instituto, Alfredo Keller, aponta que há uma “leitura crescente de que Chávez se converte em um ditador” e um “repúdio às iniciativas contra as liberdades na educação, propriedade privada, nas eleições etc.”

Mas esse desgaste nas pesquisas está longe de ser uma sentença de morte no chavismo. Em 10 anos, sua popularidade oscilou tremendamente – até abaixo do que se vê em 2009. Keller enxerga um padrão: “Entre os períodos eleitorais, Chávez atua como um ditador, e isso não agrada – sua popularidade cai. Nas eleições, é muito generoso com o povo, distribui dinheiro público – por isso sua popularidade sobe”.


TELEPRESIDENTES

Na avaliação de Rincón, Chávez e demais “telepresidentes” são um fenômeno da história recente da América Latina com raízes no desencanto com certa tecnocracia liberal dos anos 90. A maioria deles é de esquerda – ao menos vagamente -, mas esta “democracia cínica” não conhece ideologia: para Rincón, o mais bem-sucedido dos “telepresidentes” não é o bolivariano Chávez, mas seu vizinho e antagonista, o colombiano Álvaro Uribe (“É im-pe-cá-vel”, afirma, escandindo as sílabas). São seguidos de perto, ainda na avaliação de Rincón, pelo equatoriano Rafael Correa, que, como Chávez e Uribe, também tem seu programa semanal de TV. “Três estilos, um mesmo modo de governo: todos eles são autoritários, missionários, charmosos, retóricos.”

Embora reconheça que estejam alguns graus abaixo, o pesquisador lista em seguida: o presidente boliviano Evo Morales (“com sua imagem de virtuoso construída sobre a identidade indígena”), o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (“com a imagem do trabalhador que vem de baixo”), o paraguaio Fernando Lugo (“o religioso”) e os que chama “maus imitadores”: a argentina Cristina Kirchner (“toda feita de roupas e arrogância”) e o mexicano Felipe Calderón (“que só pretende imitar Uribe”).


PRÓXIMA TEMPORADA

Para Rincón, a mesma lógica que rege um seriado explica o empenho com que tantos desses líderes batalham em favor de sua própria reeleição. “É como na televisão: quando um programa faz sucesso, acentuam-se os detalhes e programa-se uma nova temporada”, diz. “Isso reflete a estética da repetição, que promete um pouco mais: mais diversão, mais amor, mais milagres na próxima temporada… logo, mudar as leis, as regras do jogo e até os cenários é valido para manter a audiência”. O mesmo raciocínio pode explicar também as razões de um governo, eventualmente, sair do ar. “Os cidadãos/telespectadores estamos nos entediando”, acredita. “Podemos chegar a mudar de canal… por chatos, pobres e desinteressantes.”

durar até oito horas pode fazer sucesso na TV aberta. “É pura capacidade discursiva”, diz. “Ele entende bem a linguagem da televisão.”


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