Votos vencem balas

Publicado: junho 11, 2009 por Yogi em Capital, International, Politics, Tudo
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Thomas L. Friedman – New York Times
Eu confesso. Sou louco por eleições livres e justas. Aquece meu coração ver as pessoas colocando votos em uma caixa para expressar sua vontade, especialmente em uma região onde isso acontece tão raramente. Por isso eu vim para o Líbano no domingo, ver os libaneses realizarem sua eleição nacional. Foi de fato livre e justa – não como a eleição fingida que você verá no Irã, onde só os candidatos aprovados pelo Líder Supremo podem se candidatar. Não, no Líbano foi a coisa real e os resultados foram fascinantes: o presidente Barack Obama derrotou o presidente Mahmud Ahmadinejad do Irã.

Está bem, eu sei. Nenhum deles estava em votação, mas não há dúvida sobre a visão de quem venceu aqui. Primeiro, uma sólida maioria de cristãos libaneses votou contra a chapa de Michel Aoun, que queria alinhar sua comunidade com o partido xiita Hizbollah, e tacitamente com o Irã, porque os considerava os mais capazes de proteger os interesses cristãos – e não o Ocidente. A maioria cristã votou nos que queriam preservar a soberania e a independência do Líbano contra qualquer potência regional.

Em segundo lugar, uma sólida maioria de todos os libaneses – muçulmanos, cristãos e drusos – votou na coalizão 14 de Março, liderada por Saad Hariri, filho do primeiro-ministro assassinado Rafik Hariri. Essa coalizão apoiada pelos EUA vê o futuro do Líbano como um estado independente da influência síria e iraniana e comprometido com seu pluralismo, a educação moderna, uma economia moderna e uma visão progressista.

Saad Hariri, com 71 dos 128 assentos do Parlamento, provavelmente será o próximo primeiro-ministro. Ele sabe que seu gabinete terá de incluir elementos importantes da facção de Aoun e do Hizbollah. Mas se alguém saiu dessa eleição com autoridade moral para liderar o próximo governo foi a coalizão que quer que o Líbano seja governado por e para os libaneses – e não para o Irã nem para a Síria, nem para combater Israel.

Infelizmente, o Líbano ainda está longe de ter um governo estável e o Hizbollah continua sendo uma força armada poderosa fora do estado libanês. No entanto, algo importante aconteceu aqui: a corrente dominante libanesa, armada somente de votos, e não de balas, venceu.

“Eles votaram em seu país e seu modo de vida”, disse o historiador libanês Kemal Salibi. “Houve persistência, foi uma vitória da esperança e da coragem.”

Os votos eram as únicas armas que a coalizão 14 de Março tinha contra uma aliança Irã-Hizbollah-Síria, que é amplamente suspeita de ter participado do assassinato de Rafik Hariri, assim como de seis membros progressistas do último Parlamento e dois dos melhores jornalistas do Líbano – Gebran Tueni e Samir Kassir -, por terem insistido na independência de seu país. No entanto, os aliados, filhos e, em um caso, a filha – Nayla Tueni – desses políticos mortos ainda se candidataram à eleição e venceram.

Eu assisti à votação em uma escola na aldeia de Brummana, na montanha. As pessoas vieram de carro, de cadeira de rodas, a pé – jovens, velhos e doentes. Uma senhora muito idosa caminhava ligada a um pequeno tanque de oxigênio. O tubo em seu nariz a ajudava a respirar. Um jovem carregava o cilindro prateado de oxigênio de um lado dela e uma moça a mantinha em pé do outro. Mas, por Deus, ela ia votar.

“As pessoas nunca compareceram dessa maneira”, disse Sebouh Akharjelian, 29, um empresário na fila de votação. “O que está em jogo é muito alto. É ou render-se a Ahmadinejad ou ficar no lado pró-ocidental.”

Para mim foi surpreendente como o líder do Hizbollah, Hassan Nasrallah, foi conciliador no discurso de admissão de derrota na segunda-feira. Toda a retórica incendiada e as ameaças das semanas anteriores desapareceram. Não tenho dúvida de que ele fará o que o Irã mandar. Mas não pode mais fingir que tem um mandato para arrastar o Líbano para a guerra com Israel novamente. Isso mostra que há um poder em todas aquelas pessoas, todas as velhinhas que votaram contra ele, e ele parecia saber disso.

Enquanto os libaneses merecem 95% do crédito por esta eleição, 5% vão para dois presidentes americanos. Como não mais de um libanês sussurrou para mim: sem George Bush enfrentando os sírios em 2005 – e obrigando-os a sair do Líbano depois do assassinato de Hariri -, esta eleição livre não teria acontecido. Bush ajudou a criar o espaço. O poder importa. Obama ajudou a atiçar a esperança. As palavras também importam.

“As pessoas dessa região ficaram tão esgotadas com a capacidade de seus estados dominarem tudo e realizarem eleições fraudulentas”, disse Paul Salem, analista do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. “E, principalmente, o mundo nunca se importou. Então veio este homem [Obama], que os procurou com respeito, falando sobre esses profundos valores, sobre sua identidade, dignidade, progresso econômico e educação, e essa pessoa mostrou que essa pequena prisão em que as pessoas vivem aqui não era o mundo todo. Que a mudança era possível.”

Mais uma vez, não queremos exagerar o que aconteceu. Mas em uma região onde os extremistas tendem a fazer o que querem e os moderados tendem apenas a ir embora, ver os moderados manter seu território e ganhar em algum lugar – com votos e não balas, simplesmente – bem, isso merece aplausos…

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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