Muçulmanos desiludidos da Índia depositam suas esperanças na política

Publicado: março 29, 2009 por Yogi em Politics, Tudo
Financial Times
Amy Kazmin
O próspero campus da Universidade Muçulmana Aligarh, no norte da Índia, representa a face moderna da comunidade muçulmana de 150 milhões de pessoas do país.

Homens jovens usando gorros e mulheres trajando burcas caminham em meio a jardins floridos e prédios indo-islâmicos no terreno da universidade, fundada há mais de um século como um farol de educação racional ao estilo Ocidental para os muçulmanos do sul da Ásia.

Mas há uma inquietação entre os 30 mil estudantes. “Agentes de inteligência estão por toda parte, observando tudo”, disse um acadêmico. É um sentimento comum, à medida que aumenta a suspeita do governo contra sua grande minoria muçulmana, especialmente após os ataques terroristas que abalaram as principais cidades indianas ao longo do ano passado.

Uma profunda insegurança ainda perturba os muçulmanos da Índia, 62 anos após a separação traumática do subcontinente governado pelos britânicos, resultando na Índia, um país de maioria hindu, e no Paquistão, de maioria muçulmana.

Apesar de suas famílias terem permanecido na ostensivamente secular Índia, os muçulmanos indianos dizem que são tratados como cidadãos de segunda classe de lealdade duvidosa, quando não como traidores e terroristas.

As percepções de discriminação foram reforçadas por um relatório de 2006 do governo, que apontou que os muçulmanos formavam a comunidade mais carente educativa, econômica e socialmente da Índia, com um status semelhante aos dalits, a casta mais baixa entre os hindus e antes conhecidos como “intocáveis”.

Entretanto, enquanto a Índia se prepara para as eleições parlamentares a partir do próximo mês, os muçulmanos estão debatendo como melhor se afirmarem politicamente para aliviar suas queixas e impedir sua comunidade de ficar ainda mais para trás na economia da Índia, que se desenvolve rapidamente. “Os muçulmanos estão pensando: ‘Se outros partidos não estão dispostos a nos dar a nossa parte, nós temos que reorganizar nosso voto'”, disse Mohammad Muqim, presidente do departamento de filosofia da Aligarh.

Por décadas após a independência, os muçulmanos foram um apoio certo ao Partido do Congresso, com seu professo compromisso com o secularismo. Seu principal rival, o partido nacionalista hindu Bharatiya Janata, retrata a Índia como uma sociedade hindu e acusa o Partido do Congresso de “apaziguamento das minorias”.

Nos últimos anos, os muçulmanos viram outros grupos oprimidos, incluindo os dalits, ganharem um maior poder político para suas comunidades, ao votarem em candidatos de sua própria casta.

Mas os muçulmanos, dispersos por todo o país, têm tido dificuldade em ganhar influência no sistema eleitoral de voto pluralitário.

Apesar de corresponderem a 14% da população, os muçulmanos normalmente detêm apenas 6% a 9% das cadeiras parlamentares, dispersos por vários partidos. Alguns distritos eleitorais com número significativo de muçulmanos há muito são reservados para representantes hindus das castas mais baixas, como parte do esforço de Nova Déli de corrigir as injustiças causadas pelo sistema de castas.

Em outras partes, os votos são fragmentados quando os partidos concorrentes lançam candidatos muçulmanos rivais.

Sempre houve uma desilusão com os políticos muçulmanos, em meio à suspeita de que os partidos nacionais promovem conscientemente aqueles com passado manchado ou questionável como sendo “representantes” dos muçulmanos.

“Os maus caráteres da sociedade muçulmana estão sendo protegidos pelos partidos políticos”, disse Saleem Peerzada, um engenheiro formado pela Aligarh. “Eles não querem que surja uma liderança muçulmana educada, real, eficaz.”

A Índia sem dúvida conta com histórias de sucesso muçulmanas. Sua vasta indústria cinematográfica é dominada por superastros muçulmanos. A Wipro, uma das maiores empresas de software do país, é controlada por um muçulmano, Azim Premji. Os muçulmanos estão espalhados pelo governo, entre os profissionais liberais e pelo setor privado.

Mas mesmo muitos muçulmanos bem-sucedidos sentem que sua comunidade enfrenta barreiras entrincheiradas que podem ser removidas apenas com uma maior força política.

“Nossa experiência nos compele -a política é obrigatória”, disse Amanullah Khan, que passou 25 anos promovendo a educação entre os muçulmanos e se queixa da relutância das autoridades em reconhecer as escolas administradas por muçulmanos. “Nós precisamos ter um partido político sob nossa própria liderança, com o qual possamos negociar melhor.”

Para isto, Khan, um novato na política, planeja concorrer nas eleições parlamentares com o partido Frente Democrática Unida de Assam. O partido muçulmano com três anos conquistou 10 cadeiras no Legislativo estadual de Assam e lançará 25 candidatos nas eleições nacionais.

O partido Parcham, fundado por Peerzada, se concentra na disputa das eleições para prefeitos e vereadores nas áreas muçulmanas.

Enquanto isso, o Conselho Milli de Toda a Índia, uma organização muçulmana, começou a apoiar candidatos, como parte de uma estratégia de unificar o voto dos muçulmanos. Manzoor Alam, seu secretário-geral, diz que a influência muçulmana pode não ser sentida por uma década, mas “em 2019, nós chegaremos a um ponto em que nenhum partido político poderá ignorar as exigências genuínas dos muçulmanos”.

Para alguns, não há nenhum momento a perder, dada a profunda desilusão entre muitos jovens muçulmanos. “Eles estão sendo pressionados contra a parede”, disse Abusaleh Shariff, um demógrafo que ajudou a escrever o relatório sobre o status dos muçulmanos. “A questão é, no final eles pegarão em armas e partirão para uma revolução?”

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