Os sete pecados capitais dos gestores de fundos

Publicado: março 6, 2009 por beatosalu em Capital, Tudo
Tags:, , , ,

Os sete pecados capitais dos gestores de fundos
André Delben Silva. Valor Econômico. 06/03/2009

Já falei aqui sobre finanças comportamentais, uma área de estudo inovadora, que busca explicar os motivos que levam os investidores a nem sempre serem racionais. Deparei-me recentemente com um material de James Montier, estrategista global do banco Société Générale. O material aborda o que podem ser considerados os sete pecados das empresas de gestão de recursos. É uma boa lembrança para nós, que somos gestores, de algumas armadilhas que devemos evitar para conseguir retornos melhores.

– Fazer previsões (Orgulho): estudos mostram que a grande maioria das pessoas (economistas e gestores de fundos incluídos) não consegue fazer previsões corretas, seja sobre o preço de ações, lucro das empresas ou qualquer outra variável econômica. Mas o orgulho leva quase todo gestor a crer que é melhor do que seus concorrentes e que as suas previsões serão acertadas. Dizia Lao Tzu, poeta do século VI A.C..: “Aqueles que têm conhecimento não fazem previsões. Aqueles que fazem previsões não têm conhecimento”.

– A ilusão do conhecimento (Gula): para bater o mercado, os gestores de fundos têm a tendência de acreditar que quanto mais informação melhor. Porém, a literatura de psicologia mostra que existem limites cognitivos em nossa capacidade de processar informação e que, além de níveis realmente baixos de informação, a decisão que tomamos tende a ser a mesma, independentemente da quantidade adicional de informação. Ou seja, o importante é o uso que se dá à informação.

– Encontros com empresas (Luxúria): os gestores dão uma importância significativa às visitas às empresas e aos encontros com a diretoria. Existem 5 barreiras psicológicas que pesam contra esse hábito: (I) mais informação não é necessariamente melhor; (II) os diretores das empresas possuem as mesmas ilusões cognitivas que nós e cometem erros significativos ao projetar o futuro de suas empresas; (III) nossa tendência é usar essas reuniões somente para confirmar o que já acreditamos; (IV) temos uma tendência inata a obedecer figuras de autoridade, ou seja, é díficil discordar de suas opiniões e (V) as pessoas têm uma grande dificuldade em diferenciar quem está falando a verdade.

– Acreditar que você pode ser mais esperto que todos (Inveja): no mercado financeiro, todos não podem estar certos, afinal é preciso dois lados para uma negociação acontecer. Porém, como já vimos, a grande maioria se acha melhor do que a média. Montier fez um experimento à semelhança do “beauty contest” proposto pelo economista inglês Keynes, no qual o objetivo era acertar qual seria o número médio (entre 1 e 100) escolhido por todos os participantes do jogo. Na prática, Keynes considerava isso parecido com o mercado financeiro, no qual cada investidor tenta antecipar o que os demais vão fazer. Nesse experimento, apenas 3 de 1000 participantes acertaram.

– Horizonte de investimento muito curto e excesso de operações (Avareza): o fato dos ativos financeiros serem negociados todos os dias não quer dizer que os gestores devam fazer o mesmo. Por exemplo, no caso das ações negociadas na bolsa de Nova York, um estudo mostra que, nas décadas de 50 e 60, os investidores mantinham suas posições em ações por 7 anos, na média. Esse número caiu abaixo de 1 ano recentemente. Em um horizonte tão curto é difícil argumentar que a ação vai sempre refletir os fundamentos de longo prazo da empresa.

– Acreditar em tudo que lê (Preguiça): todos gostamos de uma boa história. O objetivo dos corretores é contar a melhor história possível para convencer seus clientes a comprar aquela “ação do momento” ou o último IPO. Você deve pensar que só pessoas físicas são iludidas por uma história bem contada, mas, na realidade, os gestores de fundos também são grandes vítimas. Até as histórias mais ridículas são suficientes.

– Decisões em grupo (Ira): existe uma crença de que grupos tomam decisões melhores do que indivíduos. No mundo ideal, o grupo se encontra, troca ideias e chega a conclusões sensatas. A premissa é de que os membros do grupo são capazes de contrabalancear os preconceitos de cada um. Infelizmente, os psicólogos sociais passaram os últimos 30 anos mostrando que as decisões em grupo estão entre as piores. Ao invés de contrabalancear os preconceitos, os grupos tendem a ampliá-los, ao reduzir a diversidade de opiniões e aumentar a confiança dos membros, mesmo na ausência de melhora na qualidade das decisões.

Andre Delben Silva é responsável pela gestão na Advisor Asset Management

E-mail: andre@advisorfinancial.com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

comentários
  1. OM disse:

    Em época de detonação das finanças mundiais e de renovação da regulamentação, bem como as questões sobre a gestão de recursos de fundos de pensão (no Brasil e no mundo), considerar a tendência ao pecado do ser humano é muito salutar ao futuro da economia mundial.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s