Texto do Pessoa, para variar.

Publicado: fevereiro 18, 2009 por brunopm em Culture, Literature, Non Sense, Philosophy, Poetry, Tudo

Desculpem-me o sumiço, mas como diria nosso saudoso professor Celso Mello, é impossível alguma atividade intelectual neste calor insuportável! Se Kelsen tivesse nascido e vivido aqui, jamais teria elaborado a sua Teoria Pura do Direito.

Mas, contudo, porém, todavia, mesmo no calor insuportável, relaxando na praia ao ler o Livro do Desassossego, entre uma olhada e outra na beleza física de algumas fêmeas que ao lado estavam, achei um texto do Pessoa que merecia uma transcrição. Antes, no entanto, melhor esclarecer que levar Pessoa para praia é apenas uma tentativa de impressionar as fêmeas com a fama do autor, usando as armas que tenho e unindo o útil ao agradável, já que não sou muito de malhar meus músculos. Se isso funciona ou não, dificilmente saberei, mas gosto de pensar que é bem possível e que quanto maior a isca, maior o peixe (não em tamanho físico, mas em recompensa). Vai saber se no meio da futilidade há uma alma de beleza física que se importa realmente em desenvolver seu espírito… No fundo, o objetivo é sempre um e sempre politicamente incorreto; creio que meus amigo sabem qual é.

Eis o texto – trecho 84.

“Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. É certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros. Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, e à boa maneira dos bons clássicos, erijo dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exactamente como se sente – claramente, se é claro, obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso –; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei.

A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi “Sou”. Se quiser dizer que existo como alma separada, direi “Sou eu”. Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei-de empregar o verbo “ser” senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi “Sou-me”. Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isso a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção? Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões.

Conta-se que Sigismundo, Rei de Roma, que tendo, num discurso político, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, “Sou Rei de Roma, e acima da gramática”. E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo “supergramaticam”. Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz, é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se.”

 

Bom carnaval para todos. Estarei na Guarda do Embaú  explorando ao máximo possível os prazeres físicos, exaltando a vida, extraindo da natureza o máximo de prazer que meus hormônios me permitirem; coisas que deixariam a estúpida moral cristã abalada. 

 

comentários
  1. OM disse:

    Muito bom esse post. Acho que é um dos bons fundamentos para lançarmos uma campanha anti-reforma gramatical. Hahaha… Abraços

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