Dov Hanin: Ele acredita em Mandela, Marx e Moisés

Publicado: fevereiro 6, 2009 por Yogi em International, Politics, Tudo
Israel ainda pode vir a ser a terra do comunismo, segundo Dov Hanin. Sim, o comunismo falhou no século XX, mas a lição a tirar não é o capitalismo. Israel nunca esteve tão à direita. Em quem pode votar quem não apoiou a guerra? Num comunista. 85 por cento dos jovens de Telavive queriam-no para presidente da câmara. 

É uma espécie de senha. Pergunta-se a um israelita jovem, secular, cosmopolita, de esquerda, em quem vai votar e ele responde: Dov Hanin. Pergunta-se a outro – e outro – e outro, quem há de interessante na política israelita, e a resposta é: Dov Hanin. 

A quatro dias das eleições, Israel está mais à direita que nunca nas sondagens. O líder da extrema-direita, Avigdor Lieberman, sobe, vai em terceiro lugar à frente dos trabalhistas, e Bibi Netanyahu já disse que, se for mesmo primeiro-ministro, lhe dá um ministério “importante”.

A esquerda sente-se deprimida. Os políticos não o dirão, mas nas famílias de esquerda as conversas vão desde votar em Tzipi Livni para derrotar Netanyahu até sair do país. O centro-esquerda tem a opção de votar nos moderados do Meretz, mas isso é para quem apoiou a guerra de Gaza.

Em quem podem votar os israelitas que não apoiaram a guerra de Gaza? Em Dov Hanin.

O mais espantoso – num país tão consumista e americanizado como Israel – é que Dov Hanin é um comunista. Não um ex-comunista, um comunista-comunista.

Mas há três meses, quando se candidatou à Câmara de Telavive, as últimas sondagens deram-lhe nada menos que 85 por cento dos votos na faixa abaixo dos 35 anos – ou seja, a esmagadora maioria da juventude.

Foi com esses votos que Hanin acabou por ter uns notáveis 35 por cento do total dos votos, correndo contra o presidente da câmara, que se recandidatava com o apoio de todos os partidos, incluindo os religiosos.

Esta rara campanha – um comunista de um lado, todos os outros unidos do outro, e o comunista leva mais de um terço – foi “uma manifestação clara” de que há algo de novo na sociedade israelita, resume Dov Hanin, sentado num dos muitos cafés acolhedores de Telavive.

Uma hora depois, despede-se a dizer: “Ainda não verá a nova esquerda nestas eleições. Provavelmente, vai vê-la nas próximas.”

Verdes e voluntários

Pai de três filhos, neto de rabinos da Bielorrússia, este advogado de 50 anos tem uma boa amostra do país na sua própria família alargada, “aí umas 150 pessoas”, que discutem intensamente. Desde a direita do Likud ao próprio Dov, passando pelos partidos religiosos, há votantes para tudo – menos Lieberman.

A conversa começa com Hanin a oferecer um caderninho reciclado, que no verso é um bloco e no reverso é campanha. “As pessoas podem usá-lo.” A mensagem é: não gastar dinheiro em coisas inúteis, até porque não o têm.

“Fizemos a campanha da câmara com o entusiasmo dos jovens. No dia das eleições, tínhamos 2500 voluntários por toda a cidade. Andar por Telavive era uma espécie de revolução. Éramos os únicos na rua. Não tínhamos dinheiro para grandes cartazes, então só fizemos uns anúncios que as pessoas podiam pôr nas varandas, e 3000 varandas em Telavive puseram-nos. Foi espantoso.” Cada anúncio, diz, custou “menos de dois dólares”. 

Entretanto, as mesmas sondagens que lhe davam 85 por cento na faixa “menos de 35 anos” davam-lhe apenas 15 na faixa “acima de 50”. “Ensinei Direito e Ciência Política e não conheço paralelo de uma divisão tão grande entre novos e velhos.”

Os novos serão os menos ideológicos. Têm menos memória da guerra fria e do comunismo. O que é que Dov Hanin e o seu partido Hadash – que junta árabes e judeus – têm que os atraia? 

“Há uma linha em Israel, que é a política de poder. Muita gente acredita nela, até as ‘pombas’ do Meretz, que apoiaram a guerra de Gaza. Mas quando se usa o poder encontra-se resistência, e usa-se mais poder, e há mais resistência, e do sangue vem mais violência. Esta é a História de Israel.” E qual é a alternativa? “Não nos construírmos como uma fortaleza, mas como um lugar que procura uma relação neutra com o mundo árabe.”

Dov Hanin não é sionista. Explica o seu não-sionismo assim: “Uma pessoa está a afogar-se no mar. Tem o direito de trepar para cima de um pedaço de madeira com uma pessoa lá em cima? A minha resposta é: sim, absolutamente. Mas tem o direito de deitar ao mar a outra pessoa? A minha resposta é: não, absolutamente. Essa é a diferença entre mim e um sionista.”

Não questiona a fundação de Israel: “Os judeus foram vítimas de uma tragédia imensa no século XX. Têm o direito de se autodeterminar. O que não têm é o direito de discriminar os árabes. Portanto, se Estado judaico quer dizer autodeterminação, sim, se quer dizer discriminação nacional, não.”

Há quem pense assim e defenda a solução de um único Estado, binacional, com judeus e palestinianos. Mas Hanin acredita em dois Estados. “Esta terra desenvolveu-se historicamente de forma diferente, e é a vontade destas duas nações viver separadamente.” 

Se fosse primeiro-ministro, “Jerusalém seria dividida em duas capitais”. E quanto ao direito de retorno de quase dois milhões de palestinianos refugiados no Líbano, Jordânia e Síria? “Primeiro, reconhecer que têm esse direito. E depois a sua implementação prática tem que ser negociada entre as duas partes.” 

Estaria disposto a retirar centenas de milhares de colonos da Cisjordânia e Jerusalém-Leste? É possível? “É. Israel aborveu mais de um milhão de pessoas da ex-União Soviética, e muitos nem falavam hebraico. Os colonos ao menos falam hebraico.”

Qualquer judeu tem o direito de vir para Israel. É o que se chama fazer aliyah. Dov Hanin manteria isto? “Israel deve continuar aberto a todos os judeus perseguidos por serem judeus.”

Corrigir o século XX

Hanin sabe que a sua popularidade não vem de ser comunista, pelo contrário. Há quem o escolha apesar dele ser comunista e há quem o escolheria se ele não fosse um comunista.

“Como é possível votar num comunista em 2009?” é a pergunta de muitos israelitas de esquerda, que até acham Hanin “um homem bom”, ou um “homem decente”.

“Para mim, o comunismo é a tentativa radical de mudar o mundo”, diz Hanin, para começo de resposta. “Vai dizer-me que já foi tentado, e tem razão. Essa tentativa falhou, e foram cometidos vários erros e crimes. O estalinismo foi um erro e criou muitos crimes. O estalinismo foi o maior desastre do comunismo. Muita gente concluiu que a única alternativa era o capitalismo e eu não aceito isso. A verdadeira lição é aprender com o que aconteceu no século XX. Não quero repetir esses erros.”

Então, além do conflito israelo-palestiniano, que faria Hanin se fosse primeiro-ministro? “Libertava mais esferas da dominância do mercado. Um sistema em que cada cidadão tivesse direito a segurança social, saúde e educação financiadas pelo Estado.” E nacionalizava bancos. “Há dois ou três anos as pessoas achariam isto perigoso, e veja-se o que aconteceu na América e em Inglaterra.” A crise mundial, diz, “foi um sinal de como o capitalismo podia falhar”.

Defender tudo isto tem um preço: “Agitaram bandeiras a chamar-me anti-sionista e apoiante dos refuseniks, por eu ter sido advogado de refuseniks.” Como a esmagadora maioria dos israelitas, Hanin fez o serviço militar (entre 1976 e 1979, uma fase calma), mas recusou servir nos territórios palestinianos. Aqueles que recusam o próprio serviço militar são muito poucos e muito mal-vistos. “O Exército é a instituição mais forte de Israel”, resume Hanin. 

Exemplo de uma sociedade próxima do seu ideal? Pensa e não acha. “Há exemplos que podemos tirar de uma e de outra.” Quais? “A segurança social da Escandinávia. O sistema de saúde em Cuba.” Fica por aqui. O que ia buscar à América? “A cultura pop, o movimento antiguerra do Vietname, Martin Luther King.” Obama? “Tem potencial. Espero que tenha a coragem de fazer o necessário.”

Exemplos de líderes? “Nelson Mandela”, responde de imediato. “Um líder da mudança, de uma mudança muito complicada, um homem sensato.” Mais? “Karl Marx, claro. O maior pensador de todos, na capacidade de analisar a sociedade.” Quando a crise rebentou, muito se disse que Keynes estava actual. “Keynes é um reformador, mas Marx está mais vivo que nunca. O que não terá chorado ou rido nesta crise…” E finalmente? “Moisés, o líder dos escravos, aquele que os levou da escravatura egípcia para o deserto, e nessa viagem longa fez deles um povo muito interessante. Foi um libertador. Pode perguntar-me: acha que Moisés existiu? Não importa. Vive na memória e na tradição das pessoas.”

Essas pessoas são Israel, e o que Hanin gostava era que “Israel fosse o lugar de uma ideia para outras sociedades”. 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s