174 e a janela continua fechada.

Publicado: janeiro 26, 2009 por brunopm em Cinema, Juris, Philosophy, Tudo

“Mas logo que ouvia: ‘Bathilde! Vem ver se impedes teu marido de beber conhaque!’, já homem pela covardia, eu fazia o que todos nós fazemos, uma vez que somos grandes, quando há diante de nós sofrimento e injustiças: não queria vê-los; ia soluçar lá no alto da casa, ao lado da sala de estudos, sob os telhados, em uma pequena peça que cheirava a íris…” (Marcel Proust, do livro Em Busca do Tempo Perdido, Volume 1 – No Caminho de Swanm)

Pois é, nesse final de semana, o primeiro de minhas férias, retornei à agradável cidade de Santa Teresa-ES para rever uns bons amigos (um é sufista, bolero, ciclista, produtor de café, de queijo, dono de um bar estilo café, administrador de uma outra fazenda, cinuqueiro, adora o Bob e uma birita; outro é um tatuador de um talento absurdo, ganhou recentemente um campeonato de altíssimo nível, e faz tatuagens iradas nos piões locais cobrando merreca, sustenta sua família com a tatoo e deixa sua esposa louca por não saber cobrar). Enfim, também sou amigo de um dono de uma pousada (linda, por sinal) que está doido pra casar, coitado. Foi na pousada dele, entre um bob e outro, que assisti, na área reservada à diretoria, o documentário sobre o episódio 174.

Não posso tecer nenhuma crítica do documetário porque esse meu amigo passava para frente o filme toda vez que os bandidos iam prestar um depoimento. Ele só queria ver o Sandro, o cara que sequestrou, se fudendo junto com a polícia. Fez o que todos fazemos quando vemos uma paisagem feia: fechou a janela e ligou o ar.  Após muita pilha, ele resolveu ouvir os depoientos, mas não conseguia deixar de falar para justamente não ouvir o que eles diziam, gostando apenas quando um dos bandidos criticou o Sandro afirmando que ele mandou mal em ter assaltado um ônibus, pois só roubavam ricos, e que ele mandou mal em levar um revoler, já que podia ter comprado baratinho uma granada e, com o pino arrancado, apertando o buraco com o dedo (para não explodir), ninguém ia atirar nele em momento algum.

Pelo que eu vi do filme, foi relamente uma crônica de uma morte anunciada (grande Garcia Marquez), como alaís, são praticamente todos os homicídios no rio, já que, segundo a CBN, apenas 96% dos crimes são investigados pela polícia (desnecessário deduzir que esses 4% investigados são quando a vítima é rica ou quando se consegue prender o autor em flagrante).

Como disse, mais uma vez, Proust, “a imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes sejam imposta por nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas.” Enquando fecharmos a janela tudo vai seguir como planejado: a violência vai crescer.

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