AUTOPSICOGRAFIA

Publicado: janeiro 20, 2009 por Yogi em Poetry, Tudo

O poeta é um fingidor. 

Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor
 
A dor que deveras sente.
 

E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem,
 
Não as duas que ele teve,
 
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão,
 
Esse comboio de corda
 
Que se chama coração.

Nesta vida, em que sou meu sono, 
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.

Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhasse
A Presença Real sob disfarce
Da minha alma presente sem intento.

Pousa um momento, 
Um só momento em mim,
 
Não só o olhar, também o pensamento.
 
Que a vida tenha fim
 
Nesse momento!

No olhar a alma também 
Olhando-me, e eu a ver
 
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
 
A ver até esquecer
 
Que tu és tu também.

Só tua alma sem tu 
Só o teu pensamento
 
E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou
 
Ficou com o momento
 
E o momento parou.

Fernando Pessoa

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